Fuga (II)

Saltou o muro e correu em direção à praça, onde havia o ponto de ônibus. “Pego a primeira coisa que aparecer”, pensou. Chegou, milênios-segundos depois, um ônibus para o metrô. Ao pôr o pé no primeiro degrau do ônibus, ouviu sirenes na rua de baixo: “A polícia já chegou”. Logo dariam de cara com a casa aberta e vazia, cadê o dono, cadê quem mora aqui? Um exame de balística diria que a bala veio do quintal daquela casa, a bala que matrou a matriarca anciã ou a priminha de quatro anos, tanto faz e o dono evadiu-se. Foi ele! O ônibus pôs-se numa lenta e ruidosa marcha, como se avisasse a todos da sua fuga. Pagou a passagem – estou enchendo esse dinheiro de impressões digitais! – e sentou-se ali, longe dos olhos do cobrador, que o fitaram quando ele passou e pagou a passagem com dinheiro muito miúdo. Estava dentro do bolso da calça toda uma miríade de moedas de dez centavos – oh, quantos dom-pedritos!- que caiu indigesta na mão do cobrador.

Três mil milênios depois, o ônibus chegou à estação do metrô e ainda era dia. Numa banca de jornal, comprou uma boina ridícula sem olhar para os olhos do jornaleiro; comprou também um jornal para cobrir o rosto. Entrou no metrô e foi num vagão vazio, no contrafluxo. Três pessoas no vagão e ele não olhou para a cara de nenhuma, cobriu o rosto com o jornal e teve de distrair-se com a coluna de política interna e os editoriais. Mas, para qual estação? A dúvida, ácida, começou a corroer-lhe o cérebro e um suador frio invadiu-lhe cada dobra do corpo. Como será que estaria a rua? Talvez a polícia já tivesse isolado a área; talvez ainda não tivessem descoberto sua fuga, pois os peritos ainda estão olhando para o corpo; logo verão o buraco da bala e, olhando por ele, verão o muro e o seu quintal, de onde o tiro partiu.

Faltavam duas estações para a linha terminar. Na outra ponta, um terminal rodoviário. É isso, pensou consigo. Vai pegar um ônibus para qualquer lugar. O condutor do vagão, entre as banalidades cotidianas anuncia para que se dê o lugar para os mais necessitados, que não se dê esmola, que isso, que aquilo e anuncia a estação terminal. Ele salta e seus olhos já estão à frente, procurando trôpegos os degraus metálicos da escada rolante. Pensa que, agora sim, os peritos deixarão o corpo imóvel de quem quer que seja e se aproximarão do muro olhando, pelo ângulo que a bala cortou o vidro e pegou a pessoa atrás dele, que o projétil veio por cima do muro de blocos descobertos.

Viu-se diante dos guichês das companhias de ônibus. Achou melhor não ir para um lugar muito longe, de cara, pois chamaria a atenção. Pensou em voltar, e entregar-se, mas se imaginou infanticida ou gerontocida sendo currado sem dó por todos os vinte brutamontes na cela de seis metros quadrados; e todas as noites e todas as tardes aquilo se repetiria. Sobreveio-lhe um calafrio forte, que o fez estremecer.

Decidiu por continuar a ir. Pensou nos ônibus. Mas eles não olham o documento de identificação antes do embarque? Talvez uma companhia de ônibus que fizesse trajetos curtos, como pouco além das bordas metropolitanas, os motoristas não se ativessem tanto a esses detalhes. Comprou uma passagem da companhia Alto Moldava de Transportes que fazia trajetos até Pedra Vermelha, ali, logo ali e o bom de Pedra Vermelha era a saída dos grandes eixos de circulação, das grandes rodovias. Saindo da cidade, o ônibus pegaria a grande estrada principal, a Nacional 22 a oeste e, depois de uma horrível cidade dormitório à beira do rodovia, havia a estrada estreita que ia até Pedra Vermelha.

Ele comprou a passagem no guichê e pagou a dinheiro. Com a cara enfiada no jornal, ficou esperando os quinze minutos que o separaram da compra à partida do ônibus com a cara enfiada no jornal, recostado em uma pilastra. Logo se formou a fila de embarque. Preencheu a passagem com nome falso e número de documento falso. A fila foi andando e ele suava, suava, suava. Ele estendeu a mão com a passagem para o motorista e fixou os olhos sobre ele e sobre o boné. Sentiu que seu coração se lhe estouraria no peito a qualquer minuto e já sentia as pernas fraquejarem; o motorista estava em vias de pedir o documento. Olhou novamente: “está com algum problema, meu filho? Está suando e nem tanto calor está”. O corpo seu se regelou dum golpe. Disse que era somente uma gripe. O motorista sorriu-lhe e fez sinal para que entrasse. Depois do susto, acomodado na poltrona, o silêncio era grande dentro do ônibus, a penumbra da noite acentuava a calma do ambiente e a única coisa que ouvia enquanto via o ônibus fazer as manobras para deixar a plataforma era o bater do seu coração, absolutamente descompassado.

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