Fuga (I)

I
Foi uma besteira. Nunca tinha pegado arma de fogo na mão. Aquela, era do padrinho. Ele, no seu dia de folga. Pegou a arma e mirou. A arma, caída, lançou um projétil que entrou por uma janela e da janela, um grito lancinante saiu. Olhou alguns segundos para a janela da casa vizinha quebrada, nenhuma reação. Pensou, chispas e fagulhas lhe percorriam o cérebro, um calor repentinamente insuportável. Alguém berrou mais longe: “Ouvi barulho de tiro”. Resolveu, por fim, ao cabo de poucos segundos, mover-se e tirou a arma do chão; ele teria matado alguém. A resposta da sua cabeça foi um gigantesco sim. Meu deus! Prisão, junto com aquele monte de gente. A pessoa morta no chão, numa poça de sangue, meu deus! E ele, na cadeia, isso, claro, se sobrevivesse ao linchamento que os vizinhos promoveriam. Depois, algum deles viria à televisão: “a gente nunca suspeitou que morava perto dum assassino sanguinário e impiedoso que teve coragem de matar…”. O pensamento cortou-se. Na janela por onde o tiro entrou moravam mais de dez pessoas. Era uma daquelas casas de aluguel que é alugada para um casal e o cara, depois, traz, primo, irmão, tia, painho e mainha lá do sertão bravio. A bala poderia ter pego qualquer um deles; até dois, de tão pequeno que era ali dentro, ele conhecia. Sua primeira namorada tinha morado ali. Ali tinha acontecido – atrás da janela, fechada – o seu primeiro intercurso. Pegou a arma, correu para dentro e a enrolou num guardanapo de cozinha, com um horrendo morando pintado, e pôs a arma amarrada ainda dentro dum saco plástico.
Começou a ouvir um zum-zum-zum de vozes; a cabeça começou a latejar e ele, começou a suar. Era sábado, nublado. Lembrou-se de pegar a carteira enquanto corria – por sorte – e quando foi sair de casa, viu que havia gente aglomerada no portão da casa vizinha. “já sabem, já sabem!”. O muro de divisa esquerdo da casa dava para a viela. Pôs a carteira no bolso e um envelope com dinheiro que estava, por sorte, sobre a cômoda do quarto; pegou ainda a trouxa da arma e a enfiou na mala a tiracolo; correu para o quintal. Pôs a cabeça acima da linha do muro e viu que a viela estava vazia.

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