A geografia vulgar

I.
Quanta coisa ergueu-se e hoje não há sequer sombra. Não falo das civilizações antigas, mas do espaço das cidades ultra-modernas, que mudam sua paisagem a cada piscada de olhos. A experiência é teoricamente fácil: comparar as duas cidades diferentes, temporalmente falando. Difícil é encontrar os traços da civilização de oito ou dez lustros passados. As paradas de trem somem e trocam de números; as avenidas se abrem, ruas sucumbem. Os sobrados geminados de telhas francesas e postigos redondos dão lugar a prédios de vinte enfadonhos andares. O cansaço do concreto armado; como é cansativo o cinza-prático do concreto bastardo, material sem pai nem mãe. Os detalhes neoclássicos são absorvidos pelas paredes e o mar de asfato afoga os paralelepípedos e os trilhos dos bondes.

II.
Outro dia – na verdade, já tem alguns anos – uma manilha preguiçosa fez com que a água escapasse e abrisse o asfalto da avenida Celso Garcia. Sob o manto preto macerado, surgiu um bom trecho da pele de paralelepípedos e um veio, a barra de um trilho de bonde, justamente aquele que dava caminho à garagem em frente, hoje usada pelos trólebus. No dia seguinte não havia mais nada: não há espaço para qualquer saudosismo.

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