Cartas litorâneas (XIII)

Cartas litorâneas XIII

Chegou o dia de ir. Resolvi ir sozinho, não queria mais dar trabalho aos meus filhos. O mais velho chegou a ficar irritado comigo, porque eu quero descer de ônibus e ponto. Pedi que somente me deixasse no Jabaquara. De lá eu pego o ônibus e me vou. Estou bem, muito bem, pronto para outra, eu diria. Muito relutante, ele concordou, embora pediu que, por qualquer eventualidade ou contratempo, que eu lhe telefonasse e também que avisasse quando chegar a Peruíbe. Levou-me à rodoviária e acabou por não poder ficar até a partida do ônibus. A descida da serra fora tranquila e eu também estava tranquilo, sentia-me estranho, mas tranquilo. Chegado em Peruíbe, peguei o ônibus urbano e desci no ponto costumeiro. Agora sim, depois de meses de São Paulo e hospitais, a conhecida brisa marítima vem dar-me o seu oi. Deixo as últimas casas do bloco compacto da cidade. Os terrenos mais amplos vão aparecendo, a serra vem morrer aqui. A minha rua. Diminuo o passo cauteloso sinto a areia branca das ruas sob a sola do meu sapato. As ondas estão no seu marulho ancestral. Eu deveria estar nervoso? Não, estou tranquilo, tranquilíssimo. Chego no portão com pezinhos de lã e, com as pernas ainda ágeis para um homem da minha idade, transponho-o sem ruído. Chego agachado junto à porta da sala, vejo que, como eu esperava, ela fora arrombada – possivelmente com um maçarico, por causa das manchas de queimado – e o miolo da chave fora trocado. De cócoras, aproximo-me dos vidros da janela e vejo que estou distraidamente batendo à máquina. Somente o barulho das batidas dos tipos no carro é que ecoam dentro da sala. Sou eu. Do lado de fora, tiro da sacola que trago a arma que comprei de um conrabandista durante um dos meus passeios de recuperação. Sem um mísero tremor miro em mim, que estou sentado, batendo à máquina. Um, dois, três. Atiro. Um tiro certeiro, sequer percebi que atirei, sequer percebi que me atingi. Jazo irremediavelmente morto no chão da sala; guardo a arma e, enfiando a mão pelo postigo, giro a chave que está na porta, por dentro, e entro.

Fim

Veja também: I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, X, XI e XII.

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