Cartas litorâneas (XI)

Não vi o caminho para o Hospital porque a dor desacordou-me. Meu filho disse que foi complicado, porque, sendo final de semana, havia muita gente e muito trânsito. Caminho aberto a golpes de buzina. Acordei algumas horas depois, totalmente anestesiado, num quarto da santa casa. Só via, não ouvia. Vi meu filho mexendo a boca para um vulto que estava na porta. Dormi de novo, num sono pesado e sem sonhos. Acordei novamente. Outro quarto de, possivelmente, outro hospital. Agora eu ouvia, e ouvia um longinquo rumor de automóveis. Meus filhos estavam ao pé da cama e perceberam que eu acordei. Informaram-me de tudo. O golpe de aortas por pouco não foi fulminante e tiveram de remover-me às pressas para São Paulo. Subi a serra de ambulância; acho que só porque fazia muito que eu não subia a serra. Estava na UTI do Hospital do Coração e fui submetido a uma cirurgia para pôr pontes. O médico creditou meu ataque a um contínuo e crescente estado de tensão e os meninos tentavam arrancar de mim o motivo do nervosismo num lugar tão tranquilo. Lembrei-me subitamente da chave, depois de todos esses dias de escuridão e anestesias. Subitamente senti uma fisgada, não exatamente no coração, mas, com quase certeza na vesícula biliar, pois foi um raiva súbita. Algo dessa raiva súbita transpareceu, pois os meninos acharam melhor calarem-se.

Veja também: I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX e X.

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