Os pobres? Que se fodam!

Tenho medo de começar este texto por aquele nome próprio de país, por aquele topônimo, berço da minha raça inexistente e da nacionalidade que igualmente inexiste. Brasil. Quantas coisas ocorrem nesse nosso Brasil, não? Pense comigo: são mais de oito milhões de quilômetros quadrados, quase duzentos milhões de almas que erram pelas plagas do cerrado, em barcos no Pantanal, lambendo o chão no Semi-Árido e pisando em goma de mascar cuspida no calçamento na Paulópole do Sul-Maravilha. Não querendo bancar o Visconde de Ouro Preto com seu baboso e ridículo “Porque me ufano de meu país”, mas ocupamos um território no qual tínhamos tudo para ser prósperos e felizes.

O que ferra com tudo então? É como a piada: o povo. Não me apareçam aqui os nacionalistas de bumbo-e-chuteira dizendo que eu espezinhei com o nacional só porque sou algum tipo de xenófilo. Não é nada disso. Reconhecer as próprias fraquezas é ter metade do jogo ganho. E onde está então o problema da nacionalidade? Em outra coisa ora louvada, ora achincalhada: o famoso jeitinho. Essa verdadeira lepra é o que nos estraga no âmago, ainda no berço. Corrompe-nos, corrói-nos. Por que recaio num tema velho e desbotado? Fácil, por um problema moderno e localizado; na verdade, dois: mamatas mil e o problema dos funcionários da USP cuja contratação o Tribunal de Contas do Estado diz não ter seguido alguns preceitos necessários, o que caracterizaria quase mil postos de trabalhos como “irregulares”. A cota de bilhetes aéreos de suas Excelências, os membros do legislativo federal, seus mil auxílios: auxílio-moradia, auxílio-vestimenta, auxílio-selo, auxílio-tempero, auxílio-telefone. Tudo aqueles elementos têm. Tudo. Ganham um verdadeiro rio de dinheiro inesgotável. Ainda que tivéssemos um país onde as coisas andassem a contento: serviços públicos decentes, saúde, educação e tantas outras palavras carimbadas dos discursos dos políticos, muito que bem. Mas sabemos que não é assim. Ganhamos mal e trabalhamos demais para ganhar mal. Quem ganha dois mil reais por uma jornada e quarenta horas semanais é praticamente um marajá. Segundo a classificação adotada pelo Governo, para fins estatísticos, esse hipotético felizardo ganhador de dois mil reais mensais pertence, sem entremeios, à nossa inflacionada classe média. De fato, feliz de quem ganha dois mil reais na terra do salário-mínimo. E por quarenta horas. Os senhores deputados, não sei exatamente qual a sua carga horária, mas sei que eles trabalham três dias na semana (terça, quarta, quinta); mesmo que trabalhem oito horas diárias, somariam vinte e quatro horas. É quase certo que eles não trabalham as oito horas diárias (“quase” porque sempre deixo substituir a dúvida por um resquício de ingenuidade). Outras informações que tive de boca, dizem que há não muito, os deputados tinham uma passagem de avião semanal de Brasília para o Rio de Janeiro, afinal, muito, mesmo depois da transferência da capital federal para Brasília mantiveram no Rio seus escritórios e… mas, quanto tempo isso faz? Quase cinquenta anos!

Entre esses e aqueles e aqueloutros benefícios, fora o salário, cada deputado embolsa mensalmente algumas dezenas de milhares de reais. Ah, e tem ainda, além do décimo-terceiro salário (benefício idêntico – guardadas as proporções – que tentaram arrancar da choldra), um tal de décimo-quarto salário. Curioso, não? Todas essas benesses financeiras foram sendo postas e transpostas na folha de pagamento dos parlamentares devagar, na maciota, com a conivência dos anos (como a viagem para o Rio), ou seja, com o jeitinho, a tão aclamada malemolência que permeia a alma nacional.

Porém, o jeitinho, como toda lei ambígua, parece não valer para os simples mortais. Que gritem aí os pobres coitados que são atendentes de telemarketing ou os mais baixos subordinados os quais tudo temem e nada têm. Também no setor público. O emprego público costuma ser confundido, por um ignóbil senso comum, com uma sine cura, um deixa pra lá, um faz nada. Centenas de repartições onde o café, a fofoca e a bunda da menina mais gostosa do setor têm mais importância do que o serviço em si, ali desenvolvido. Claro que há lugares assim, mas também existem em grandes empresas muito decentralizadas, como feudos de ociosos. Também é claro que, sob a égide da estabilidade, tais vícios tendem a desenvolver-se com mais força. Mas é uma inverdade que todas as repartições púbicas assim o sejam. Fulno reclamar-me-á da lentidão do serviço público. Muitas vezes a lentidão se dá pela falta de funcionários ou de sistemas administrativos tardígrados e não necessariamente aos funcionários em si ou que a moleza lhes seja característica inerente. Convenhamos e comunguemos então que, público e privado têm seus vícios e defeitos igualmente. Verdade que no âmbito privado a coisa é severamente punida também. O emprego público de baixo escalão, ou seja, os menores tentáculos do Estado, sói ser o mais mal remunerado dentro da escala pública. E é o maior número deles: agentes de manutenção, telefonistas, faxineiras (se não forem terceirizadas), várias categorias de escribas denominados agentes administrativos, técnicos administrativos e outras tantas nomenclaturas confusas. Esse emprego público é mal remunerado.

O Estado costuma afirmar, durante a greve, que, no mercado de trabalho, os salários são ainda menores. Ou seja, a velha mania de nivelar por baixo. Não estamos falando de quanto um ou outro ganha, mas sim se é possível viver com tal salário. Se um funcionário da iniciativa privada vive somente meio mês com o ordenado mensal é justificável? É justo um salário sub-humano? E por tal é proibido revindicar algo melhor? Por favor! Tal austeridade (ao contrário da malemolência em certos escalões, principalmente nos cargos eletivos) aplica-se com todo rigor e toda violência contra quem menos pode, economicamente falando, ou seja, os pseudópodes do Estado. É isso que acontece agora na Universidade de São Paulo: por incompatibilidades políticas (suponho eu), as escaramuças entre Governo Estadual e Universidade passou à desforra administrativa. O Tribunal de Contas do Estado está pondo à prova a validade de cinco mil e tantas vagas técnico-administrativas, abertas desde a promulgação da Constituição Federal, ou seja, cinco de outubro de 1988. Parece-me que, após uma nova consideração conjunta com o TCE e a USP, a data máxima passou a agosto de 2004, o que ainda assim mantém mil postos de trabalho em situação irregular. Esses mil trabalhadores são servidores técnico-administrativos; categoria em uma Universidade dividida em castas e meritocrática, equivale a quase nada. Somente os docentes mandam e desmandam na Universidade, com um incrível despotismo, diga-se de passagem. Curiosa terra nossa onde parlamentares campeiam e pascentam loucamente às custas do erário público e onde também pequenos servidores são prejudicados por uma “má interpretação” da lei, que pode custar mil cabeças. Gente que vive a sua vida miúda, que pega metrô, trem e ônibus, que se entope de financiamentos para poder ter como mobiliar a casa às bordas da cidade. Agora, essa gente pode ficar sem emprego por caprichos políticos disfarçados de “austeridade” administrativa. Como é possível a ocorrência desse fato? É algo que, obviamente, já passado o tempo, deveria ser anistiado por uma lei, decreto ou qualquer outro lixo similar. Não deixar no desespero e na incerteza mil trabalhadores.

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2 Comentários

  1. Meu caro,
    além do desbunde de estilo para falar de assunto tão forte e pesado, concordo com muitas de suas palavras.
    No entanto, vale algumas considerações:
    1) creio que o ditado “cada povo possui os políticos que merece” nunca foi tão melhor aplicado quanto no Brasil. Digo isso porque a massa votar em canalhas como o Serra, que nunca se preocupou com os pobres, e sempre faz uma medida populista no final de suas gestões (como ministro também) para angariar votos do povão. É um círculo vicioso, na minha opinião.
    2) pode parecer um tanto cruel e determinista, mas o sistema de concursos públicos vigente facilita a entrada de pessoas que somente desejam a invisibilidade dentro da administração. E a manutenção desse sistema interessa aos políticos que formulam as leis, pois seriam como a base de sustentação amorfa de seus benefícios, que trabalham em prol de suas maracutaias, que recebem a rebarba do butim. Preciso formular melhor isso, mas acho que vossa mercê sacou a ideia.
    3) esse pulha careca está há tempos em guerra franca contra os setores das Universidades Públicas que lembrem qualquer tipo de mobilização popular. Claro que porque eles são um impecilho na tentativa de arrendar a universidade à iniciativa privada (vender seria muito óbvio e fácil de combater). Desse modo, qualquer cousa que possa desmoralizar a universidade e justificar a necessidade de entregá-la será feita. No entanto, para “austeridade” administrativa, os acordos e contratos das fundações, nunca serão revisitados, creio.

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  2. Sérgio F. Mendes

     /  03/06/2009

    Sim, Miguel. O bordão que você se refere no item 1 (“cada povo possui os políticos que merece”) reflete noventa por cento do meu pensamento. Concordância contigo em número, gênero e grau. Sinceramente, em termos de política, eu já não alimento esperanças. São todos iguais com roupas diferentes.

    Resposta

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