Memória, esse fardo

A memória é a capacidade que mais nos é útil; é graças a ela que conseguimos ser seres humanos, conseguimos fazer valer o significado de “civilização” e de “conhecimento”. Certo é que nossa memória não é infinita; guardamos somente o mais necessário – não poucas vezes o “inútil” desloca o necessário ao ostracismo e daí, é fácil ver-se em maus lençóis. Quantas vezes não precisávamos daquela palavra numa redação escolar ou daquela maldita equação de Física na prova? É a memória que nos prega dessas peças. Ela prefere outras coisas, como, por exemplo, saber qual a escalação do terceiro jogo da seleção na Copa de 1958; e você vai lembrar disso na hora da prova.

A minha memória, como a de vocês, também tem suas veleidades e caprichos; e digo que não são poucos. Consigo guardar uma quantidade absurda de informação “inútil”, mas sou incapaz memorizar uma lista de mercado que tenha mais de três itens. Já me aconteceu de chegar à porta do mercado e ter de voltar em casa porque esqueci o que deveria ser comprado.

Por outro lado, é divertido fornecer informações inúteis e aleatórias aos meus eventuais interlocutores.

Numa de tantas tertúlias, conversando com o Orlando, falávamos sobre as tantas mudanças do padrão monetário, os cortes de zero e as mudanças do nome da moeda. Foi dessa conversa (ou de uma similar) que me lembro sempre do Orlando dizendo que determinada coisa custava “seis trilhões de guarajás-mirim”.

Falávamos sobre a atual moeda e suas cédulas e moedas; eu as criticavas por serem muito “lisas”, ou seja, sem ter muita referência histórica ou estética; muito parecidas entre si. A graça começou quando falamos das moedas. Como eu achava que era de conhecimento geral e notório que as pessoas soubessem quem estava retratado nas moedas, comecei a falar sobre os personagens históricos de cada uma. O Orlando interrompia com um “É mesmo?” a cada vulto lembrado.

– Sim, nas moedas estão retratados alguns personagens históricos…
– Não sei, não paro para ficar olhando para as moedas… elas vêm para a minha mão e vão…

Depois vi que o fenômeno era bem mais difundido do que eu pensava; as pessoas, em sua grande maioria, não sabem quem está retratado nas moedas.

– A de cinquenta centavos, prosseguiu o Orlando, é o Lênin, não é?

– O Lênin, Orlando, numa moeda brasileira…?

– Vai se saber!

– É o barão do Rio Branco…

Orlando puxa uma moeda de cinquenta centavos do bolso.

– É mesmo… mas parece o Lênin.

Quando as moedas foram emitidas, em 1998, alguém escreveu em algum lugar que o Dom Pedro I da moeda de dez centavos estava mais parecido com o Beethoven e o Barão da moeda de cinquenta, como dissera depois o Orlando, o próprio Vladimir Lênin.

Rimos bastante. Depois, fiquei filosofando: ninguém presta atenção nessas coisas; por isso tanto faz de quem nas moedas esteja, ou que as notas haja somente bichos estampados (serão as malhas do ecologicamente correto?).

E não só no caso das moedas, mas também em vários outros. Vi que eu tinha um repertório imenso de informações totalmente desconhecidas e ignoradas. Mas vivo bem com isso e, volta e meia, uma identificação ou um reconhecimento que passa despercebido à grande maioria das pessoas me faz ter um sorriso de superioridade. Afinal, eis aí uma das coisas que me faz a vida ser um pouquinho diferente.

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Fuga (II)

Saltou o muro e correu em direção à praça, onde havia o ponto de ônibus. “Pego a primeira coisa que aparecer”, pensou. Chegou, milênios-segundos depois, um ônibus para o metrô. Ao pôr o pé no primeiro degrau do ônibus, ouviu sirenes na rua de baixo: “A polícia já chegou”. Logo dariam de cara com a casa aberta e vazia, cadê o dono, cadê quem mora aqui? Um exame de balística diria que a bala veio do quintal daquela casa, a bala que matrou a matriarca anciã ou a priminha de quatro anos, tanto faz e o dono evadiu-se. Foi ele! O ônibus pôs-se numa lenta e ruidosa marcha, como se avisasse a todos da sua fuga. Pagou a passagem – estou enchendo esse dinheiro de impressões digitais! – e sentou-se ali, longe dos olhos do cobrador, que o fitaram quando ele passou e pagou a passagem com dinheiro muito miúdo. Estava dentro do bolso da calça toda uma miríade de moedas de dez centavos – oh, quantos dom-pedritos!- que caiu indigesta na mão do cobrador.

Três mil milênios depois, o ônibus chegou à estação do metrô e ainda era dia. Numa banca de jornal, comprou uma boina ridícula sem olhar para os olhos do jornaleiro; comprou também um jornal para cobrir o rosto. Entrou no metrô e foi num vagão vazio, no contrafluxo. Três pessoas no vagão e ele não olhou para a cara de nenhuma, cobriu o rosto com o jornal e teve de distrair-se com a coluna de política interna e os editoriais. Mas, para qual estação? A dúvida, ácida, começou a corroer-lhe o cérebro e um suador frio invadiu-lhe cada dobra do corpo. Como será que estaria a rua? Talvez a polícia já tivesse isolado a área; talvez ainda não tivessem descoberto sua fuga, pois os peritos ainda estão olhando para o corpo; logo verão o buraco da bala e, olhando por ele, verão o muro e o seu quintal, de onde o tiro partiu.

Faltavam duas estações para a linha terminar. Na outra ponta, um terminal rodoviário. É isso, pensou consigo. Vai pegar um ônibus para qualquer lugar. O condutor do vagão, entre as banalidades cotidianas anuncia para que se dê o lugar para os mais necessitados, que não se dê esmola, que isso, que aquilo e anuncia a estação terminal. Ele salta e seus olhos já estão à frente, procurando trôpegos os degraus metálicos da escada rolante. Pensa que, agora sim, os peritos deixarão o corpo imóvel de quem quer que seja e se aproximarão do muro olhando, pelo ângulo que a bala cortou o vidro e pegou a pessoa atrás dele, que o projétil veio por cima do muro de blocos descobertos.

Viu-se diante dos guichês das companhias de ônibus. Achou melhor não ir para um lugar muito longe, de cara, pois chamaria a atenção. Pensou em voltar, e entregar-se, mas se imaginou infanticida ou gerontocida sendo currado sem dó por todos os vinte brutamontes na cela de seis metros quadrados; e todas as noites e todas as tardes aquilo se repetiria. Sobreveio-lhe um calafrio forte, que o fez estremecer.

Decidiu por continuar a ir. Pensou nos ônibus. Mas eles não olham o documento de identificação antes do embarque? Talvez uma companhia de ônibus que fizesse trajetos curtos, como pouco além das bordas metropolitanas, os motoristas não se ativessem tanto a esses detalhes. Comprou uma passagem da companhia Alto Moldava de Transportes que fazia trajetos até Pedra Vermelha, ali, logo ali e o bom de Pedra Vermelha era a saída dos grandes eixos de circulação, das grandes rodovias. Saindo da cidade, o ônibus pegaria a grande estrada principal, a Nacional 22 a oeste e, depois de uma horrível cidade dormitório à beira do rodovia, havia a estrada estreita que ia até Pedra Vermelha.

Ele comprou a passagem no guichê e pagou a dinheiro. Com a cara enfiada no jornal, ficou esperando os quinze minutos que o separaram da compra à partida do ônibus com a cara enfiada no jornal, recostado em uma pilastra. Logo se formou a fila de embarque. Preencheu a passagem com nome falso e número de documento falso. A fila foi andando e ele suava, suava, suava. Ele estendeu a mão com a passagem para o motorista e fixou os olhos sobre ele e sobre o boné. Sentiu que seu coração se lhe estouraria no peito a qualquer minuto e já sentia as pernas fraquejarem; o motorista estava em vias de pedir o documento. Olhou novamente: “está com algum problema, meu filho? Está suando e nem tanto calor está”. O corpo seu se regelou dum golpe. Disse que era somente uma gripe. O motorista sorriu-lhe e fez sinal para que entrasse. Depois do susto, acomodado na poltrona, o silêncio era grande dentro do ônibus, a penumbra da noite acentuava a calma do ambiente e a única coisa que ouvia enquanto via o ônibus fazer as manobras para deixar a plataforma era o bater do seu coração, absolutamente descompassado.

Fuga (I)

I
Foi uma besteira. Nunca tinha pegado arma de fogo na mão. Aquela, era do padrinho. Ele, no seu dia de folga. Pegou a arma e mirou. A arma, caída, lançou um projétil que entrou por uma janela e da janela, um grito lancinante saiu. Olhou alguns segundos para a janela da casa vizinha quebrada, nenhuma reação. Pensou, chispas e fagulhas lhe percorriam o cérebro, um calor repentinamente insuportável. Alguém berrou mais longe: “Ouvi barulho de tiro”. Resolveu, por fim, ao cabo de poucos segundos, mover-se e tirou a arma do chão; ele teria matado alguém. A resposta da sua cabeça foi um gigantesco sim. Meu deus! Prisão, junto com aquele monte de gente. A pessoa morta no chão, numa poça de sangue, meu deus! E ele, na cadeia, isso, claro, se sobrevivesse ao linchamento que os vizinhos promoveriam. Depois, algum deles viria à televisão: “a gente nunca suspeitou que morava perto dum assassino sanguinário e impiedoso que teve coragem de matar…”. O pensamento cortou-se. Na janela por onde o tiro entrou moravam mais de dez pessoas. Era uma daquelas casas de aluguel que é alugada para um casal e o cara, depois, traz, primo, irmão, tia, painho e mainha lá do sertão bravio. A bala poderia ter pego qualquer um deles; até dois, de tão pequeno que era ali dentro, ele conhecia. Sua primeira namorada tinha morado ali. Ali tinha acontecido – atrás da janela, fechada – o seu primeiro intercurso. Pegou a arma, correu para dentro e a enrolou num guardanapo de cozinha, com um horrendo morando pintado, e pôs a arma amarrada ainda dentro dum saco plástico.
Começou a ouvir um zum-zum-zum de vozes; a cabeça começou a latejar e ele, começou a suar. Era sábado, nublado. Lembrou-se de pegar a carteira enquanto corria – por sorte – e quando foi sair de casa, viu que havia gente aglomerada no portão da casa vizinha. “já sabem, já sabem!”. O muro de divisa esquerdo da casa dava para a viela. Pôs a carteira no bolso e um envelope com dinheiro que estava, por sorte, sobre a cômoda do quarto; pegou ainda a trouxa da arma e a enfiou na mala a tiracolo; correu para o quintal. Pôs a cabeça acima da linha do muro e viu que a viela estava vazia.

Americana, 13/12/2008

Momento de afastar-se da cidade, deixá-la com seu trânsito, sua neurose e sua fumaça para trás. É hora de seguir os preceitos arcádicos: fugir da cidade. Aproximar-se dos campos e dos pântanos: transcrever as odes às libélulas, juntar-lhes os graves coros dos sapos. O alto-falante é um acidente; também o são Bonaparte, Franco e Churchill. A mecânica real é a dos pequenos seres: por não terem consciência das suas condições, não perecerão jamais, enquanto nós estamos atados à nossa perene efemeridade.

Anericana/SP, 13/12/2008 – 23:40

A geografia vulgar

I.
Quanta coisa ergueu-se e hoje não há sequer sombra. Não falo das civilizações antigas, mas do espaço das cidades ultra-modernas, que mudam sua paisagem a cada piscada de olhos. A experiência é teoricamente fácil: comparar as duas cidades diferentes, temporalmente falando. Difícil é encontrar os traços da civilização de oito ou dez lustros passados. As paradas de trem somem e trocam de números; as avenidas se abrem, ruas sucumbem. Os sobrados geminados de telhas francesas e postigos redondos dão lugar a prédios de vinte enfadonhos andares. O cansaço do concreto armado; como é cansativo o cinza-prático do concreto bastardo, material sem pai nem mãe. Os detalhes neoclássicos são absorvidos pelas paredes e o mar de asfato afoga os paralelepípedos e os trilhos dos bondes.

II.
Outro dia – na verdade, já tem alguns anos – uma manilha preguiçosa fez com que a água escapasse e abrisse o asfalto da avenida Celso Garcia. Sob o manto preto macerado, surgiu um bom trecho da pele de paralelepípedos e um veio, a barra de um trilho de bonde, justamente aquele que dava caminho à garagem em frente, hoje usada pelos trólebus. No dia seguinte não havia mais nada: não há espaço para qualquer saudosismo.

Cartas litorâneas (XIII)

Cartas litorâneas XIII

Chegou o dia de ir. Resolvi ir sozinho, não queria mais dar trabalho aos meus filhos. O mais velho chegou a ficar irritado comigo, porque eu quero descer de ônibus e ponto. Pedi que somente me deixasse no Jabaquara. De lá eu pego o ônibus e me vou. Estou bem, muito bem, pronto para outra, eu diria. Muito relutante, ele concordou, embora pediu que, por qualquer eventualidade ou contratempo, que eu lhe telefonasse e também que avisasse quando chegar a Peruíbe. Levou-me à rodoviária e acabou por não poder ficar até a partida do ônibus. A descida da serra fora tranquila e eu também estava tranquilo, sentia-me estranho, mas tranquilo. Chegado em Peruíbe, peguei o ônibus urbano e desci no ponto costumeiro. Agora sim, depois de meses de São Paulo e hospitais, a conhecida brisa marítima vem dar-me o seu oi. Deixo as últimas casas do bloco compacto da cidade. Os terrenos mais amplos vão aparecendo, a serra vem morrer aqui. A minha rua. Diminuo o passo cauteloso sinto a areia branca das ruas sob a sola do meu sapato. As ondas estão no seu marulho ancestral. Eu deveria estar nervoso? Não, estou tranquilo, tranquilíssimo. Chego no portão com pezinhos de lã e, com as pernas ainda ágeis para um homem da minha idade, transponho-o sem ruído. Chego agachado junto à porta da sala, vejo que, como eu esperava, ela fora arrombada – possivelmente com um maçarico, por causa das manchas de queimado – e o miolo da chave fora trocado. De cócoras, aproximo-me dos vidros da janela e vejo que estou distraidamente batendo à máquina. Somente o barulho das batidas dos tipos no carro é que ecoam dentro da sala. Sou eu. Do lado de fora, tiro da sacola que trago a arma que comprei de um conrabandista durante um dos meus passeios de recuperação. Sem um mísero tremor miro em mim, que estou sentado, batendo à máquina. Um, dois, três. Atiro. Um tiro certeiro, sequer percebi que atirei, sequer percebi que me atingi. Jazo irremediavelmente morto no chão da sala; guardo a arma e, enfiando a mão pelo postigo, giro a chave que está na porta, por dentro, e entro.

Fim

Veja também: I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, X, XI e XII.

As Cartas Chilenas

Além dos textos de Psicanálise, estou lendo (ou mais folheando, lendo superficialmente, o que for mais do vosso agrado) as Cartas Chilenas, atribuídas a Tomás Antônio Gonzaga.

Certo que, em sendo aventura apenas começada, é precipitado tirar qualquer conclusão; mas apenas à leitura do prólogo já deu para ter uma ideia do que vem adiante, e também de como tal tema é atual quando aplicado à nossa classe política. Se bem que não adianta remeter-lhes um exemplar pois sua compreensão será difícil, senão impossível.

Somente à guisa de amostra, ponho aqui os primeiros quatro decassílabos brancos da 1ª carta:

Amigo Doroteu, prezado amigo,
Abre os olhos, boceja, estende os braços
E limpa, das pestanas carregadas,
O pegajoso humor, que o sono ajunta.

Esses deveriam ser versos lapidados por toda a parte e postos em metal, tendo em vista a sua precisão descritiva: “Doroteu, dorminhoco, levanta logo e tira a remela da cara”, pois o que vou te contar, por mais incrível que possa parecer, não mo contou qualquer um ou é prosa de menestrel.

Vamos ver como prossegue.

Além dos textos de Psicanálise, estou lendo (ou mais folheando, lendo superficialmente, o que for mais do vosso agrado) as Cartas Chilenas, atribuídas a Tomás Antônio Gonzaga.

Certo que, em sendo aventura apenas começada, é precipitado tirar qualquer conclusão; mas apenas à leitura do prólogo já deu para ter uma ideia do que vem adiante, e também de como tal tema é atual quando aplicado à nossa classe política. Se bem que não adianta remeter-lhes um exemplar pois sua compreensão será difícil, senão impossível.

Somente à guisa de amostra, ponho aqui os primeiros quatro decassílabos brancos da 1ª carta:

Amigo Doroteu, prezado amigo,
Abre os olhos, boceja, estende os braços
E limpa, das pestanas carregadas,
O pegajoso humor, que o sono ajunta.

Esses deveriam ser versos lapidados por toda a parte e postos em metal, tendo em vista a sua precisão descritiva: “Doroteu, dorminhoco, levanta logo e tira a remela da cara”, pois o que vou te contar, por mais incrível que possa parecer, não mo contou qualquer um ou é prosa de menestrel.

Vamos ver como prossegue

Cartas litorâneas (XII)

Fiquei três meses no meu apartamento em que morei quando trabalhava, hoje ocupado pelo meu filho mais velho, sua esposa e meus dois netos. Antes de sair para trabalhar, escutei-o dando recomendações aos pequenos que não fizessem bagunça pois o vô está se recuperando. Os meus meninos são de ouro, assim como os meus netos, que não me deixam levantar para pegar um copo d’água. Depois de algum tempo, tive autorização médica para poder dar umas voltas pelo quarteirão e lentamente ia recuperando o ritmo da minha caminhada. Cada dia ia mais longe, passando por ruas desconhecidas e entrando em lojas dos mais variados artigos. Certa noite, estava eu no quarto e meu neto mais novo, com o qual divido a habitação, já estava dormindo, cismei de mexer da minha mala e achei, armafunhado na pressa com que meu filho recolheu alguns pertences pessoais para o meu uso aqui, uma folha de papel sulfite datilografada e dobrada em três. Ora, mas é a carta que o advogado bateu em minha casa! À luz do abajur comecei a lê-la, finalmente. Tratava-se não dum texto literário, mas duma carta batida em espaço um, com períodos intermináveis e sem parágrafos. Peguei meus óculos e comecei a ler. Era um agradecimento formal às alegrias que eu lhe trouxera sempre com as cartas, com a nossa troca de correspondência, que ficara feliz de conhecer-me antes de morrer e mais uma enfiada de sentimentalismos. No final, a última linha solta abaixo do corpo do texto dizia: Cuidado contigo. Uma forma estranha de dizer a alguém que tome cuidado, que seja feliz, etc., mas posta evidentemente de uma maneira estranha. Não era: Atenciosamente, nem sequer: Cordialmente, ou algo mais efusivo: Abraços fraternos. Era tão-só: Cuidado contigo.

Veja também: I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, X e XI.

Os males da terceirização

22

Do fantástico Fernando Gonsales.

Cartas litorâneas (XI)

Não vi o caminho para o Hospital porque a dor desacordou-me. Meu filho disse que foi complicado, porque, sendo final de semana, havia muita gente e muito trânsito. Caminho aberto a golpes de buzina. Acordei algumas horas depois, totalmente anestesiado, num quarto da santa casa. Só via, não ouvia. Vi meu filho mexendo a boca para um vulto que estava na porta. Dormi de novo, num sono pesado e sem sonhos. Acordei novamente. Outro quarto de, possivelmente, outro hospital. Agora eu ouvia, e ouvia um longinquo rumor de automóveis. Meus filhos estavam ao pé da cama e perceberam que eu acordei. Informaram-me de tudo. O golpe de aortas por pouco não foi fulminante e tiveram de remover-me às pressas para São Paulo. Subi a serra de ambulância; acho que só porque fazia muito que eu não subia a serra. Estava na UTI do Hospital do Coração e fui submetido a uma cirurgia para pôr pontes. O médico creditou meu ataque a um contínuo e crescente estado de tensão e os meninos tentavam arrancar de mim o motivo do nervosismo num lugar tão tranquilo. Lembrei-me subitamente da chave, depois de todos esses dias de escuridão e anestesias. Subitamente senti uma fisgada, não exatamente no coração, mas, com quase certeza na vesícula biliar, pois foi um raiva súbita. Algo dessa raiva súbita transpareceu, pois os meninos acharam melhor calarem-se.

Veja também: I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX e X.

Os pobres? Que se fodam!

Tenho medo de começar este texto por aquele nome próprio de país, por aquele topônimo, berço da minha raça inexistente e da nacionalidade que igualmente inexiste. Brasil. Quantas coisas ocorrem nesse nosso Brasil, não? Pense comigo: são mais de oito milhões de quilômetros quadrados, quase duzentos milhões de almas que erram pelas plagas do cerrado, em barcos no Pantanal, lambendo o chão no Semi-Árido e pisando em goma de mascar cuspida no calçamento na Paulópole do Sul-Maravilha. Não querendo bancar o Visconde de Ouro Preto com seu baboso e ridículo “Porque me ufano de meu país”, mas ocupamos um território no qual tínhamos tudo para ser prósperos e felizes.

O que ferra com tudo então? É como a piada: o povo. Não me apareçam aqui os nacionalistas de bumbo-e-chuteira dizendo que eu espezinhei com o nacional só porque sou algum tipo de xenófilo. Não é nada disso. Reconhecer as próprias fraquezas é ter metade do jogo ganho. E onde está então o problema da nacionalidade? Em outra coisa ora louvada, ora achincalhada: o famoso jeitinho. Essa verdadeira lepra é o que nos estraga no âmago, ainda no berço. Corrompe-nos, corrói-nos. Por que recaio num tema velho e desbotado? Fácil, por um problema moderno e localizado; na verdade, dois: mamatas mil e o problema dos funcionários da USP cuja contratação o Tribunal de Contas do Estado diz não ter seguido alguns preceitos necessários, o que caracterizaria quase mil postos de trabalhos como “irregulares”. A cota de bilhetes aéreos de suas Excelências, os membros do legislativo federal, seus mil auxílios: auxílio-moradia, auxílio-vestimenta, auxílio-selo, auxílio-tempero, auxílio-telefone. Tudo aqueles elementos têm. Tudo. Ganham um verdadeiro rio de dinheiro inesgotável. Ainda que tivéssemos um país onde as coisas andassem a contento: serviços públicos decentes, saúde, educação e tantas outras palavras carimbadas dos discursos dos políticos, muito que bem. Mas sabemos que não é assim. Ganhamos mal e trabalhamos demais para ganhar mal. Quem ganha dois mil reais por uma jornada e quarenta horas semanais é praticamente um marajá. Segundo a classificação adotada pelo Governo, para fins estatísticos, esse hipotético felizardo ganhador de dois mil reais mensais pertence, sem entremeios, à nossa inflacionada classe média. De fato, feliz de quem ganha dois mil reais na terra do salário-mínimo. E por quarenta horas. Os senhores deputados, não sei exatamente qual a sua carga horária, mas sei que eles trabalham três dias na semana (terça, quarta, quinta); mesmo que trabalhem oito horas diárias, somariam vinte e quatro horas. É quase certo que eles não trabalham as oito horas diárias (“quase” porque sempre deixo substituir a dúvida por um resquício de ingenuidade). Outras informações que tive de boca, dizem que há não muito, os deputados tinham uma passagem de avião semanal de Brasília para o Rio de Janeiro, afinal, muito, mesmo depois da transferência da capital federal para Brasília mantiveram no Rio seus escritórios e… mas, quanto tempo isso faz? Quase cinquenta anos!

Entre esses e aqueles e aqueloutros benefícios, fora o salário, cada deputado embolsa mensalmente algumas dezenas de milhares de reais. Ah, e tem ainda, além do décimo-terceiro salário (benefício idêntico – guardadas as proporções – que tentaram arrancar da choldra), um tal de décimo-quarto salário. Curioso, não? Todas essas benesses financeiras foram sendo postas e transpostas na folha de pagamento dos parlamentares devagar, na maciota, com a conivência dos anos (como a viagem para o Rio), ou seja, com o jeitinho, a tão aclamada malemolência que permeia a alma nacional.

Porém, o jeitinho, como toda lei ambígua, parece não valer para os simples mortais. Que gritem aí os pobres coitados que são atendentes de telemarketing ou os mais baixos subordinados os quais tudo temem e nada têm. Também no setor público. O emprego público costuma ser confundido, por um ignóbil senso comum, com uma sine cura, um deixa pra lá, um faz nada. Centenas de repartições onde o café, a fofoca e a bunda da menina mais gostosa do setor têm mais importância do que o serviço em si, ali desenvolvido. Claro que há lugares assim, mas também existem em grandes empresas muito decentralizadas, como feudos de ociosos. Também é claro que, sob a égide da estabilidade, tais vícios tendem a desenvolver-se com mais força. Mas é uma inverdade que todas as repartições púbicas assim o sejam. Fulno reclamar-me-á da lentidão do serviço público. Muitas vezes a lentidão se dá pela falta de funcionários ou de sistemas administrativos tardígrados e não necessariamente aos funcionários em si ou que a moleza lhes seja característica inerente. Convenhamos e comunguemos então que, público e privado têm seus vícios e defeitos igualmente. Verdade que no âmbito privado a coisa é severamente punida também. O emprego público de baixo escalão, ou seja, os menores tentáculos do Estado, sói ser o mais mal remunerado dentro da escala pública. E é o maior número deles: agentes de manutenção, telefonistas, faxineiras (se não forem terceirizadas), várias categorias de escribas denominados agentes administrativos, técnicos administrativos e outras tantas nomenclaturas confusas. Esse emprego público é mal remunerado.

O Estado costuma afirmar, durante a greve, que, no mercado de trabalho, os salários são ainda menores. Ou seja, a velha mania de nivelar por baixo. Não estamos falando de quanto um ou outro ganha, mas sim se é possível viver com tal salário. Se um funcionário da iniciativa privada vive somente meio mês com o ordenado mensal é justificável? É justo um salário sub-humano? E por tal é proibido revindicar algo melhor? Por favor! Tal austeridade (ao contrário da malemolência em certos escalões, principalmente nos cargos eletivos) aplica-se com todo rigor e toda violência contra quem menos pode, economicamente falando, ou seja, os pseudópodes do Estado. É isso que acontece agora na Universidade de São Paulo: por incompatibilidades políticas (suponho eu), as escaramuças entre Governo Estadual e Universidade passou à desforra administrativa. O Tribunal de Contas do Estado está pondo à prova a validade de cinco mil e tantas vagas técnico-administrativas, abertas desde a promulgação da Constituição Federal, ou seja, cinco de outubro de 1988. Parece-me que, após uma nova consideração conjunta com o TCE e a USP, a data máxima passou a agosto de 2004, o que ainda assim mantém mil postos de trabalho em situação irregular. Esses mil trabalhadores são servidores técnico-administrativos; categoria em uma Universidade dividida em castas e meritocrática, equivale a quase nada. Somente os docentes mandam e desmandam na Universidade, com um incrível despotismo, diga-se de passagem. Curiosa terra nossa onde parlamentares campeiam e pascentam loucamente às custas do erário público e onde também pequenos servidores são prejudicados por uma “má interpretação” da lei, que pode custar mil cabeças. Gente que vive a sua vida miúda, que pega metrô, trem e ônibus, que se entope de financiamentos para poder ter como mobiliar a casa às bordas da cidade. Agora, essa gente pode ficar sem emprego por caprichos políticos disfarçados de “austeridade” administrativa. Como é possível a ocorrência desse fato? É algo que, obviamente, já passado o tempo, deveria ser anistiado por uma lei, decreto ou qualquer outro lixo similar. Não deixar no desespero e na incerteza mil trabalhadores.