Cartas litorâneas (IX)

Depois de uma noite má dormida, na frente do bule de café fervido, cheguei à conclusão óbvia de que o ocorrido de ontem tratou-se de um sonho. Exatamente: um sonho, ou pesadelo, gerado por uma mente cansada. Pego o regador largado num canto da sala e vou regar as plantas do jardim. Estou já regando as plantas um tempo quando vejo um brlho, um reflexo no meio de um vaso de samambaias. É um molho de chaves. É o meu molho de chaves. Enfio a mão no bolso e o meu molho de chaves está no bolso da minha calça. Tenho dois molhos de chaves nas minhas mãos, idênticos: as três chaves das portas, mas duas de cadeados, as dos arquivos, que são seis pequenas, o chaveiro de metal imitando a silhueta dum coqueiro, o cortador de unhas. Levei-os para dentro e comparei item a item; até mesmo a sequência que foram enfiadas as chaves no aro do chaveiro era a mesma. Dois molhos idênticos; como se aquelas eram as suas chaves. Então a aparição não fora um sonho. Mas como podia? Aquilo deve ter sido uma aluncinação. Alguém tentou entrar em casa e num instante, por causa da luz forte e confusa, vi meu rosto na cara de um vulgar ladrão, arrombador de portas. Mas e as chaves? Como esse molho pode ser idêntico ao meu, sem tirar nem pôr? Sobre essas coisas não se fala e, se estão longe das vistas, deixam de existir. Por isso, tranquei o molho no grande arquivo, o maior móvel.

Veja também: I, II, III, IV, V, VI, VII e VIII.

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