Cartas litorâneas (VII)

Parei de escrever. Somente o faço a meu único correspondente, o advogado. O outro, não; escrevi que soubera do livro e ele ainda teve a audácia de responder-me. Porém, sua carta não juntou-se às tantas suas no arquivo, mas foi entregue à preguiçosa chama da vela, esturrou-se. Pela primeira vez, não respondei a uma carta a mim enviada. Não houve outra daquele encarregado, ou sabe lá o que realmente ele seria. Uns dias depois da queima da carta, um dia abafado e quente terminou num dilúvio. Eu admirava os coriscos no céu quando vi um carro parar diante do meu portão; imaginei que fosse algum turista a pedir abrigo, mas não pareceu. O homem desceu de impermeável cinza e olhou para mim do portão; veio até a porta e eu a abri. Tirou o chapéu e cumprimentou, recitou o meu nome e sobrenome, se aquele que atendia por tal nome ali morava. Desconfiado, disse que sim. Eu não recebia visitas, ainda mais de gente estranha que sabia o meu nome de cor; não me passou pela cabeça que poderia ser algum dos meus destinatários. Ele identificou-se: era o advogado. Quase não me contive de emoção: pedi para que ele se sentasse que eu faria um café. Era um homem parecido comigo mesmo, mas que se vestia à antiga, tínhamos quase a mesma idade: somente três meses de diferença, como soubemos pela conversa. Conversamos bastante e a tarde já caía em noite quando seu rosto ficou grave e ele anunciou a real intenção da sua visita: estava com um tumor no cérebro e não lhe restava muito tempo de vida; ele tinha de descer e conhecer o homem com quem trocou tantas cartas esses anos todos. Fiquei triste e os olhos do advogado encheram-se de água. Textos tão líricos eram os seus. Pedi que se levantasse e me acompanhasse até o fundo da casa. Lá estavam os vários arquivos que continham todas as cartas enviadas; abrei uma das gavetas e deixei que ele mexesse. Puxou uma, duas, uma terceira e parecia não acreditar no que via. Perguntou se fora eu quem escrevera todas e eu assenti com a cabeça. Sentou-se na cadeira olhando-me e percebeu que tinha diante de si a máquina de escrever. Puxou uma folha da bandeja, enfiou-a na máquina e começou a escrever. Bateu uma carta longa. Retirou-a da máquina, dobrou-a em três deu-a na minha mão e despedimo-nos. Pegou seu carro, e saiu de ré pela rua.

Veja também: I, II, III, IV, V e VI.

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1 comentário

  1. Juliana

     /  25/05/2009

    Estou curiosa para saber onde isso vai dar…

    Responder

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