Cartas litorâneas (V)

Desde a morte de Olívia, minha vida não tem sido nada mais do que dedicar-me às cartas. Quase chego atrasado ao seu enterro porque antes passei na agência dos correios e havia uma filinha. Devo confessar que fiquei triste de dar a minha companheira de trinta e cinco anos à areia salgada do cemitério quase à beira-mar. Os meninos vêm me ver de quinze em quinze dias. Nunca me deixam sem papel, carbono ou folhas de sulfite, nem que as mandem pelo correio. Nos últimos tempos, pus uma mesa de ferro no quintal de casa e, sombreado pelas frondosas árvores do terreno, ponho-me a escrever; porém, já não escrevo com a mesma força: das dez cartas diárias, média mantida por trinta anos, agora, fico no máximo nas três ou quatro por semana e preferencialmente aos meus dois correspondentes: o encarregado de compras e o advogado. O encarregado, que prometera visitar-me nunca apareceu, mas continua mantendo a correspondência, se bem que mais espaçada. Mais assíduo é o advogado que, no rodapé das cartas, sempre manda alguma notícia pessoal, sobre seus filhos e sua escosa e eu, somente a ele, mando-lhe notícias dos meus meninos e recordo-lhe de como era carinhosa a minha Olívia. Esse nunca prometeu visitar-me.

Veja: I, II, III e IV.

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