Cartas litorâneas

As pessoas descem de São Paulo para a Baixada para divertir-se, dizem elas mesmas. Descem com seus automóveis de chassi rebaixado, rodas prateadas e pseudomúsica no último volume. Isso é divertir-se? Por isso que, quando desço com minha família (minha esposa e meus meninos), procuramos locais mais afastados. Somos uma família tranquila, sabe? Nada de foguetório, nada de sobressaltos ou ímpetos de raiva. E nossa vilegiatura é também: sem televisão; só o rádio para qualquer eventualidade. Vamos à praia e voltamos, fora dos períodos do sol queimante. Os meninos são mais noturnos, vão atrás das moças, mas são mais tranquilos que a maioria dos da sua idade. Não me dão trabalho e eventualmente aparecem com alguma moça simpática para almoçar. Para a minha esposa fica melhor, pois a ajudo com as tarefas da casa e tudo fica mais fácil; trago sempre minha máquina de escrever. “O que você vai fazer com isso lá?”, pergunta a esposa, “Isso só ocupa lugar no portamalas”. É que preciso continuar a escrever as cartas. Pego os endereços na lista telefônica ou aleatoriamente, em cartões de visita, panfletos. Pego os endereços, redijo as cartas, de assuntos quaisquer, somente para deixá-las com a forma de carta, umas dez por dia, e as posto. Às vezes respondem-mas, muitas vezes não; depois, vamos todos à praia.

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