Cena (I)

No saco de lixo rasgado, fuça o ouro podre da comida que já não serve às bocas mais delicadas; mas seu estômago ácido espera corroer enzimas e germes e deles fazer energia e mover o corpo cascudo, encimado pela cabeça hirsuta e desporporcionalmente grande. À barba desgrenhada aderem grãos de arroz rançoso; estão a disputar a comida, aquele que se parece com um homem e os milhões de bichos invisíveis. De quando em quando, enquanto as mancheias de comida rançosa deglute-as, grita baboso: “Fora! Fora! É meu!”; desesperado, agita as maõs e os braços em todas as direções. A alguns metros, ergue-se solene e neoclassicamente rococó a porta entalhada da Secretaria de Justiça e Políticas Sociais de um mui rico estado.

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5 Comentários

  1. Silésio Roldão

     /  13/01/2009

    “…enquanto as mancheias de comida rançosa deglute-as…” é um pseudocastelhanismo absolutamente intragável.

    Responder
    • Não é um pseudocastelhanismo; sequer é um castelhanismo. É uma estrtura aceitável pelo português; pode ser que seja incomum, mas é previsível.

      Responder
  2. Belo e inusitado…

    Responder
  3. G

     /  14/01/2009

    Cru e real… :|

    Abraço!

    Responder
  4. Quem disse que os mais favorecidos também não passam fome?
    Bisous;

    Responder

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