Generalidades

Muito bem, vamos falar de generalidades. É disso que as pessoas gostam, não é? Não me culpem se não tenho nada de bom a dizer, sou um pessimista incorrigível; acho, sem sombra de dúvida que a Humanidade caminha para o patíbulo que ela mesma ergueu, tábua a tábua, prego a prego. Desespero-me porque quero dizer vamos para o outro lado, chega de deus de trabalho e de caralhadas similares. Chega. Mas não, sou o louco, o retardado, o teimoso, a besta, alguém com quem é impossível viver (eis um dos bordões prediletos da minha mãe). Em miúdos: tenho de ouvir tudo calado e não tenho direito a voz. Todos têm conselhos e sugestões, só que são dados no tom de ordens. Revoltado, eu? Que isso! Passei da idade. Nada disso.
Por que a Humanidade caminha para o seu fim? Vivemos numa sociedade antropófaga (nada de Modernismo, infelizmente, é no pior sentido do termo): vivemos da carniça alheia e, quando não, da carniça espoliada a outro abutre. Tornamo-nos abutres. Volta e meia alguém arrota uma bazófia que a competição é necessária ao ajuste da sociedade, ao equilíbrio e xis, ípsilon, zê. Porra, darwinismo social? Deixamos de ser macacos, nos desenvolvemos e criamos as Ciências, as Letras, a Humanidade, a Sociedade para que alguém chegue à mera constatação simplista de que temos que ‘involuir’ (aqui sim, é uma involução) à lei do mais forte? Porque é a isso que a afirmação da ‘competição’ leva. Mas não vou ficar aqui, gastando meus dedos, para convencer ninguém; não sei convencer os outros porque, geralmente, discutem comigo com facas e espadas em mãos. As pessoas não sabem argumentar, transmutam-se de gentil-homens a orangotangos ferozes com incrível rapidez. Discussão é para acadêmicos ou irracionais. Fico no meu canto e penso do jeito que quero. Por que tenho de ter opinião formada de tudo?
Isso tudo é um desabafo? Olha aí a pergunta retórica. É sim, é um desabafo; assisto pasmado ao desespero cotidiano, ao açougue das manhãs: as pessoas têm suas vidas esquartejadas e sequer dão conta disso. A ignorância feliz, mas, que dor! A gente bitolada que só fala de trabalho. Trabalho. Aliás, falando em trabalho, o que se pode esperar de algo cuja etimologia aponta para um instrumento de tortura? Direito ao trabalho? Eu quero que a merda inunde tudo isso! E o direito ao ócio, onde é que fica? Gente que só fala de trabalho. Ou de televisão, outra coisa podre, podre, podre, mil vezes podre. Televisão fede. Os mesmos mortos-vivos de sempre, os apresentadores de programas de auditório decadentes, âncoras de telejornais. Que merda. A televisão vive de sentimentalismo barato e desgraça. Tem assistido aos telejornais? Só desgraça. Não é possível que num país de duzentos milhões de filhos da puta não aconteça nada que seja digno de uma avaliação positiva. As emissoras, o monopólio da informação somente, querem criar uma coisa: medo. O que ganham? Não sei. Gente acuada e medrosa. Convenhamos: somos todos covardes, malditos covardes e cagões. Que temos medo até de trocar de emprego, que temos medo de arriscar, porque, ao invés de sermos incentivados, sempre tem um lazarento zicando.
Aí, perguntam-me: se tudo é uma grande merda, por que você não se mata? Sou covarde também. O meu medo é o medo da dor; a dor sempre me mortificou, a dor física.

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E eu fico aqui, reclamando da vida, no meu cubículo imundo de escritório. Mas faço questão de deixá-lo imundo, cheio de post-its (como caralho se faz o plural disso?). É a única forma que tenho de inspirar algum tipo de nojo ou reação das pessoas. Fica tudo espalhado, canetas, papéis. Minhas gavetas são a imagem da desordem. Não me incomoda uma vírgula. Não me incomodo com orangotangos treinados que fazem tarefas o dia todo.

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Idiomas. Ah, o pântano corporativo em que se transformou o aprendizado de idiomas. Basta saber alguma coisa para virar centro de referência. No pardieiro onde trabalho, virei referência por causa do castelhano, vulgarmente chamado ‘espanhol’. O duro não é fazer traduções, eu até gosto, gosto mesmo, sinceramente. O saco é você tentar explicar para alguém que determinado termo não tem uma única tradução em português e pode requerer uma pequena pesquisa para que o sentido fique límpido. O povo acha que uma língua estrangeira é um conjunto de etiquetas que se ajustam aos potes nossos da língua portuguesa. Não explico mais nada, não quero saber de gente que não está aberta a ouvir e quer somente ‘soluções práticas’. Soluções práticas que as comprem no McDonald’s.

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Literatura. Está fora de moda, convenhamos. Só faz sucesso aquilo que é ‘útil’. A tal ‘literatura corporativa’ ou ‘auto-ajuda para executivos acéfalos ou wannabe‘. Porque, de fato, executivos de verdade devem limpar-se as nádegas com aquelas páginas mal diagramadas. Pode ver: você entra na livraria e qual a primeira coisa que se ergue à sua vista? Uma pilha de lixo. Quer ler algo razoável? Vai ter de fuçar, nego, lá no fundo e na poeira. Por isso que eu ainda prefiro os sebos.

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Literatura ainda. Autor xis, autor ípsilon. Literatura é literatura. Nego fica aí dizendo: ah, Dostoiévski é melhor que Machado, ai, Machado é melhor que Rosa. Opiniões particulares não podem virar senso comum. Há coisas que as pessoas consideram lixo e eu gosto. E há coisa considerada boa (quando não cânone) que eu considero lixo (melhor eu sequer abrir a boca aqui). Então, defino literatura: texto ou textos criados com escopo minimamente artístico (mesmo que para fins técnicos ou mercadológicos). As qualificações de bom ou ruim, ou o que vai ler e o que vai jogar no incinerador, ficam a critério do leitor.

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Literatura. De novo, fazer o quê? Quando eu tive minha primeira aula de Literatura Italiana na Universidade – e quando digo a primeira, é a primeira mesmo – e o professor, para ter ideia de qual o enfoque que daria às aulas disse para que cada um se apresentasse, porque escolhera o italiano como habilitação e o que tinha lido de literatura italiana. Quase ninguém tinha lido nada e estava ali porque era a segunda opção no ranqueamento (todo mundo é anglo-saxão, tenho de conformar-me). Chegada a minha vez, disse que tinha lido Guareschi e tinha adorado. Na minha casa há um exemplar de luxo de “Dom Camilo e seu pequeno mundo” publicado pela antiga Difel, onde meu pai trabalhou. O professor, que muito se parecia com o Mário (dos Irmãos Mário) torceu o bigode: hum… Guareschi não é escritor. Como assim? Ah, minha ingenuidade. Engoli aquilo. Mas quais eram então os ‘parâmetros’ de um literato? Ali, soube-os depois: Guareschi fazia a linha política da Democracia Cristã italiana, enquanto o professor (e boa parte da crítica italiana) preferia o pessoal ‘mais à esquerda’ e vinculado ao neo-realismo. Nada contra, gosto de Calvino também (que vim a ler naquele semestre), mas se trata de um critério particular de seleção. Não há nada em Guareschi que o desabone como escritor, cronista, ou o que quer que seja.

Cartas litorâneas (II)

Sempre alugávamos a mesma casa. Até que, com as minhas rendas de burocrata, compramo-la. É afastada da cidade, embora seja fácil alcançá-la a pé. O que importa é que ela não faz parte do continente de casas, assim como uma ilha bem acerca da península. E cá ficamos, encravados entre o mar e a mata, a desfrutar dos sons das vagas e dos grilos. Na verdade, serei breve agora: mudamo-nos de São Paulo para cá; os meninos permanecem em São Paulo, porque estudam, mas eu e a minha velha resolvemos ficar aqui. Que fazer dois aposentados afundados no mar de gente da Capital a não ser aumentar o mar de gente? Aqui somos nós, sem vizinhos, com os turistas lá longe e as galinhas do vizinho. Sim, há vizinhos, mas poucos. Aqui são chácaras. As galinhas vêm no meu quintal atrás de bichinhos da grama. A Olivetti agora tem seu lugar de honra; comprei uma pequena mesa somente para ela e não deixo que Olívia ponha sequer uma das suas belas toalhinhas de tricô junto, sob ou sobre a máquina. Pedi ao Marcelo que me trouxesse fitas de máquina de São Paulo, umas trinta, para que eu não seja pego desprevenido ausência do insumo. Dez cartas por dia. Continuo mantendo a média. São as minhas histórias, para que, um dia, juntas, possam recompor-me no futuro, numa lufada do acaso. Acabo as cartas, todas batidas em duas vias (e também mantenho alto o estoque de papel-carbono). As originais, vão para o correio; as cópias meto-as num arquivo metálico.

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Ver também: I.

Paper de llum

Anatômica

Gosto de abrir envelopes
como quem abre corpos na morgue,
um único talho, destro e certeiro.

Desdobrar o papel
e empurrar vísceras inúteis –
porque procuro outras, não aquelas –
e escarafunchar nas palavras,
revolvendo fígados e mil vesículas.
Ler uma carta é uma autópsia;
ler uma carta antiga é uma exumação.

Palavra morta.

Cartas litorâneas

As pessoas descem de São Paulo para a Baixada para divertir-se, dizem elas mesmas. Descem com seus automóveis de chassi rebaixado, rodas prateadas e pseudomúsica no último volume. Isso é divertir-se? Por isso que, quando desço com minha família (minha esposa e meus meninos), procuramos locais mais afastados. Somos uma família tranquila, sabe? Nada de foguetório, nada de sobressaltos ou ímpetos de raiva. E nossa vilegiatura é também: sem televisão; só o rádio para qualquer eventualidade. Vamos à praia e voltamos, fora dos períodos do sol queimante. Os meninos são mais noturnos, vão atrás das moças, mas são mais tranquilos que a maioria dos da sua idade. Não me dão trabalho e eventualmente aparecem com alguma moça simpática para almoçar. Para a minha esposa fica melhor, pois a ajudo com as tarefas da casa e tudo fica mais fácil; trago sempre minha máquina de escrever. “O que você vai fazer com isso lá?”, pergunta a esposa, “Isso só ocupa lugar no portamalas”. É que preciso continuar a escrever as cartas. Pego os endereços na lista telefônica ou aleatoriamente, em cartões de visita, panfletos. Pego os endereços, redijo as cartas, de assuntos quaisquer, somente para deixá-las com a forma de carta, umas dez por dia, e as posto. Às vezes respondem-mas, muitas vezes não; depois, vamos todos à praia.

Texto novo

No Sete Linhas.

Cena (I)

No saco de lixo rasgado, fuça o ouro podre da comida que já não serve às bocas mais delicadas; mas seu estômago ácido espera corroer enzimas e germes e deles fazer energia e mover o corpo cascudo, encimado pela cabeça hirsuta e desporporcionalmente grande. À barba desgrenhada aderem grãos de arroz rançoso; estão a disputar a comida, aquele que se parece com um homem e os milhões de bichos invisíveis. De quando em quando, enquanto as mancheias de comida rançosa deglute-as, grita baboso: “Fora! Fora! É meu!”; desesperado, agita as maõs e os braços em todas as direções. A alguns metros, ergue-se solene e neoclassicamente rococó a porta entalhada da Secretaria de Justiça e Políticas Sociais de um mui rico estado.

Educação estadual lança ‘pacote’ para adoção de nova ortografia

Do Diário Ofícial do Estado de São Paulo – Face comum, p. 1 – vol. 119, n.º 6, 10.01.2009

A Secretaria da Educação terá um pacote de medidas para adotar já a partir de 2009 a alteração ortográfica em suas 5,5 mil escolas. O objetivo é que, neste ano, os 5 milhões de estudantes da rede estadual iniciem mudança gradual na aprendizagem, com seus professores capacitados a orientar essa alteração.
No fim de 2008, a pasta da Educação qualificou cerca de 17 mil professores e professores-coordenadores de oficinas pedagógicas (PCOPs), que têm atribuição de difundir conhecimento na rede de ensino. Este processo terá continuidade já no início deste ano, por intermédio da Rede do Saber (sistema da secretaria que permite comunicação rápida, via Internet, entre todas as escolas e os professores estaduais). Um roteiro com as mudanças será colocado à disposição pela secretaria a todos os 250 mil professores com download pelo site da pasta.
Materiais disponibilizados pela secretaria – guias curriculares e cadernos do professor, por exemplo – terão versão 2009 com a nova ortografia, já que estão sendo produzidos em conformidade com as novas regras. O material didático dos alunos é distribuído pelo Ministério da Educação.
Vídeo com aula sobre as mudanças também será apresentado on-line (via site) pela secretaria, com acesso a todos os educadores da rede.

Da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação

Educação prepara:

  • Materiais – como guia curricular e caderno do professor – atualizados
  • Capacitações de professores – 17 mil já foram capacitados em 2008
  • Roteiro com mudanças no site da secretaria (www.educacao.sp.gov.br/)
  • Vídeo sobre as mudanças no site da pasta da Educação
  • Acompanhamento contínuo, via Diretorias de Ensino, da aplicação das normas ortográficas

Diário para Técnicos Linguísticos

Agora, a convite do amigo Miquel Boronat, estamos por aqui também, mas são textos mais técnicos.

Lluís Colet defende a língua com um discurso de 124 horas: “Falarei desde o conde Vilfredo até o TGV”

O feito começará segunda, 12 de janeiro, às 10 da manhã, e a intenção é terminá-lo sexta, 17 de janeiro, às 14 h. O lugar, a estação de trem de Perpinhã, o centro do mundo, segundo Salvador Dalí.

Por Jordi Palmer, do Avui.cat

O perpinhanês Lluís Colet tentará recuperar o recorde Guinness de discurso mais longo com um lance inédito: um discurso de 124 horas seguidas. Colet, conhecido defensor da língua e da cultura na Catalunha Setentrional já havia detido anteriormente o recorde, com discursos de 24 e 48 horas. O norte-catalão planeja recuperar o título com um discurso de 124 horas.

“Falarei desde o conte Vilfredo até o TGV” declarou Colet ao AVUI.cat, convencido de que será capaz de “chegar até o final”. O discurso, que trará o título de “Os catalães em discursos e poesias” realizar-se-á na estação de Perpinhã, ou seja, no lugar que Salvador Dalí definiu como “o centro do mundo”. O feito começará segunda, 12 de janeiro, às 10 da manhã e a intenção é terminá-lo sexta, 17 de janeiro, às 14 horas.

Cento e vinte e quatro horas seguidas falando não será nada fácil, e Colet afirma estar preparado. “Ficaremos no restaurante-bufê da estação, exatamente ao lado dos sanitários, e enquanto comer, falarei de cozinha catalã com um tom mais relaxado”, assegurou. Mais difícil será aguentar as 124 horas, ou seja, cinco dias e quatro horas, sem dormir.

O objetivo, defender a língua
“O discurso será em catalão -agrega Colet-, mas que terá algumas explicações em francês”. Com efeito, a intenção de Colet com esse discurso é a de “trazer a atenção sobre a realidade da língua catalã e honrá-la”, razão pela qual convida a todos os catalães a “asssistir e dar apoio”.

“Eu sou catalão e defendo a língua dos meus pais e dos meus avós”, continua um Colet otimista que comemora poder enfrentar esse feito “com a colaboração da prefeitura de Perpinhã”. Para Colet, na Catalunha Setentrional está a produzir-se uma “mudança de consciência” segundo o qual, a população aproxima-se da língua e do sentimento catalão. “E tudo isso -frisa-, enquanto a municipalidade nos ajuda, a República não nos ajuda. O governo francês é o único que não reconhece as línguas, porque é um governo muito centralizador.

Texto original em catalão.

Tradução de Sérgio Mendes.

Acordo ortográfico (sem o calor do instante)

Não. Ao contrário do que muitos pensam, não me lançarei contra a reforma. É arbitrária? Sim, mas o que não é? E não se trata de conformismo puro e barato, desses que se ouve em qualquer esquina ou ponto de ônibus. Não. É o oposto. Penso que uma língua de cultura deve ter uma única grafia sim. Respeitados vocabulários, obviamente. No Multiply, responderam-me a um comentário de postagem da seguinte maneira: “o que adianta mudar as grafias se aqui continuaremos a dizer paletó e lá fato?”. Não sei o que quer dizer uma frase dessas. Achei-a excessivamente ingênua. Ou seja, mil e poucas palavras diferentes justificam duas grafias para uma única língua?

Muitos amam a ideia de que cá falamos uma língua e em Portugal outra. É claro que há variantes e variedades e não só a portuguesa e a brasileira, mas e principalmente a sul-brasileira, a paulista, a minhota, o estremenho. As variantes de cá ou de lá justificam uma nova grafia para cada uma delas? São línguas diferentes justifiquem Ou a aversão ao Acordo baseia-se num conservadorismo ilógico e impedernido, ou ainda pior, em nacionalismos caducos, em “línguas nacionais”. A língua não é só nossa e nem só de Portugal.

Como estava antes também não justificava o Acordo: nós no famoso Formulário Ortográfico de 1943 e eles-e-colónias no Acordo Ortográfico de 1945. As diferenças não eram tão gritantes que impedissem as comunicações por escrito: trata-se de frescurites das editoras, possivelmente. Agora, espero que venham os livros portugueses para cá. Estou esperando; se tal acontecer, será a maior e mais grandiosa realização do Acordo.

Que o Acordo de agora seja para a língua de quatrocentos anos e que parem de fazer uma revisão a cada trinta anos.