À sombra da reforma ortográfica

Os estampidos das espumantes saudaram (involuntariamente) algo mais que a simbólica mudança no calendário, a simples e comum passagem de ano: estamos às portas da nova reforma ortográfica. À zero hora de primeiro de janeiro próximo, passa a vigorar a nova ortografia da língua portuguesa. E pergunto: para quê? A atual ortografia, consolidada há somente trinta e oito anos, e, convenhamos, mal-consolidada, será substituída por novas regras em alguns campos específicos. Foge-me qual o fanico que motiva a mudança. Três reformas em menos de setenta anos: em 1943, 1971 e agora, em 2009. Há algo a tresandar. O francês contenta-se com as ditas ‘retificações’, quando uma ou duas palavras mudam a direção de seus diacríticos.

Os elementos da nova reforma só servirão a estabelecer a confusão e a dubiedade em um sistema mal-consolidado. Qual o problema da ortografia de 1971? Qual era o problema da ortografia de 1943? Qual o problema da dita ‘pseudo-etimológica’? Na última versão da ortografia veremos somente a mudança de regras de hifenização que, convenhamos, deixará algumas palavras muito diferentes de como as conhecemos e… para nada. A reforma ortográfica, na pretensão oca da ‘união’ entre as grafias lusitana e brasileira, somente trará confusão e transtornos.

Outra pergunta que me paira sobre a cabeça: sendo a Galiza membro observador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, adotará ela alguma das resoluções, mesmo que em caráter facultativo? Ou continuará a dizer, seu governo autonômico de direitas, que o galego é uma língua ‘totalmente’ diferente do português?

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4 Comentários

  1. Pretendo, se a preguiça me deixar, emitir em primeiro de janeiro meu primeiro e curto manifesto: a não-adesão radical à reforma. Talvez eu proponha uma revolta armada, não sei, estou pensando. Mas não vou aderir. No pasarán.

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    • Olha, Orlando, não sei se resistência armada, mas, o que acho e que fica patente pela leitura do texto do acordo é que é uma reforma inócua e que somente trará dor-de-cabeça. Nada muda substancialmente, somente a regra de hifenização, novo pântano e inferno das aulas de português daqui em diante. Pelo menos teremos a dupla vigência até o ocaso de 2012.
      “No pasarán”? Passarão é por cima de nós, amigos, pobres coitados relegados à categoria daqueles que somente obedecem. Pode parecer loucura, ainda mais porque boa parte do país está a cagar-se a tudo isso, mas era o caso de um referendo sobre o assunto. Interessante seria colher assinaturas para uma consulta popular.

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  2. Mandy

     /  30/12/2008

    Pobres galegos, prova máxima de que a mãe de hoje pode virar a velhinha esquizofrênica e sem utilidade no asilo de amanhã…

    Bom, vamos ao x: eu ainda não li o mini-guia em pdf – a mim presenteado por um usuário de e-mail caridoso – com as novas regras. Até agora, a única conclusão que tiro disso (e é a que vai ficar, pelo que tô vendo) que algumas pessoas ganharão muito dinheiro com isso. Se formos espertos, podemos publicar uma nova gramática e tirar proveito da situação.

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    • Gostei da imagem, Mandy. A mãe que virou a velhinha esquizofrênica. Mas, digamos que, no caso do galego, essa esquzofrenia tem nome, ou melhor, tem dois nomes: castelhano e Franco. Quase conseguiram acabar com o galego, estigmatizando-o.
      Bem, a única coisa de fato a ser celebrada é que, para bem ou para mal, é a primeira vez, desde o início dos acordos, que ambas as variantes escritas estarão sob a mesma norma. Até agora, nós estávamos sob o Forlumário Ortográfico de 1943, enquanto os portugueses (e ex-colônias) estavam sob o Acordo Ortográfico de 1945, que não vingou por aqui.
      Fora que mesmo os protocolos que tiraram o diacrítico do acento secundário em palavras derivadas foram efetuados por dispositivos legais diferentes. Cá, em 1971, em Portugal-e-Colónias, em 1973. É uma doideira!

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