Achei uns textos velhos no domingo e estou atrás de outros. Coisas que não reconheço como minhas. Estou calmo e ao mesmo tempo irritável, como é da natureza do ser humano. Odeio telefones e eles tocam o dia todo ao meu redor: são como vendedores insistentes e desagradáveis. Ao mesmo tempo, sinto-me à parte, como já dizia o Mestre, o solitário andar por entre a gente. As ladainhas ao redor, os pequenos problemas que as pessoas se criam que se tornam clamores horríssonos; é, cansei.
102. Vinagre
09/02/2010 · Deixe um comentário
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101. VIII
08/02/2010 · 1 Comentário
VIII
De agouros e fados não se opina:
já basta de Laocoonte a lembrança
das cobras que lhe tolheram a chibança
e aos filhos seus com sanha assassina.
Quanto a mim, ministro-me borbotina
para evitar que em alguma folgança
venham vermes para esvaziar-me a pujança.
Deixo os fados a quem os vaticina.
A vida, por sua mão e seu fio
desenha certeira os vitais caminhos:
faena própria do fiandeiro trio.
Não me queria sucessos daninhos,
mas estoico aceito este seu ardil,
seja ele de carris largos ou mesquinhos.
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100. VII
04/02/2010 · Deixe um comentário
VII
Por toda parte tudo revirou-se:
do lugar comum a obscuros temas
e mesmo sofrendo tantos dilemas,
mesmo assim, nem boas, nem novas trouxe.
Dos baços inflados à Arcádia doce
não aflorou daí nenhuma gema.
Desde a floresta e da abóbada extrema,
o silêncio como se pétreo fosse.
E desiste, se não encontra madeira
da mesma selva, o hábil escultor?
Urge que seja com nova maneira
que se trate o engenho criador:
goiva, formão e afiada talhadeira;
lenho velho e renovado vigor.
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99. Cancioneiro da Navarra (I)
30/01/2010 · Deixe um comentário
Exórdio
Invoco ora as pirenaicas musas
porque já me proponho a grande faina:
o marceneiro, a poética plaina
sou; livrai-me das palavras confusas
pois não quero deixar mal-entendidos,
e quero meus leitores entretidos
com inúmeras façanhas abstrusas.
Que não me falte o divinho engenho
que vomitórios já tenho comigo
e purgantes brevemente consigo
para expelir esta história que cá tenho.
Eia, sus! Avante, fiel amigo!
Há muito que contar do sujo umbigo
de tantos nobres da face de lenho.
Ai de ti, minha Navarra sofrida!
Se ainda tens algo belo a admirar
é que os duques, em sono salutar
têm a avidez também adormecida.
Ora, só resta às províncias implorar
que não venha algum tributo exemplar
para roer a renda já roída.
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98. “Eu queria mais poesia [...]“
30/01/2010 · 1 Comentário
Eu queria mais poesia,
mas as manchas de bolor na pintura do quarto
não deixam.
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97. Velharias
25/01/2010 · 1 Comentário
I
Na cama, ouço a urbe que cochila,
ouço as folhas batidas pelo vento.
Longe, trina o último metrô, lento;
um bói sob a luz dos postes desfila.
As velhas portas quisera eu abri-las;
o ar noviço pelo breu violento:
preamar do escuro mar marulhento
a inundar de vazio bairros e vilas.
Até que saia o sol, jaz a cidade.
Sirenes e rãs, o som de tal morte
fátua e efêmera da necessidade.
A escuridão, assumindo esse porte,
a carregar-me, sua veleidade
e entrega-me a devaneios sem norte.
(XII-2007)
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95. Sem título
27/12/2009 · 2 Comentários
Sem título
É difícil pensar no que escrever num mundo onde tudo já foi escrito ou pensado; com o agravante de tantas distraçoes. O computador não é a mesma coisa se não tem acesso à rede. E se tem acesso, todo e qualquer trabalho que exija o mínimo de concentração e inventividade estará irremediavelmente comprometido. Eu que o diga. Toda e qualquer (maldito “toda e qualquer”, é a segunda vez que aparece!) inspiração sucumbe à minha natural inépcia somada à acídia que me entorpece o cérebro. Como escapar a tamanha artimanha moderna? Como subtrair-se de algo tão grande, essa teratologia dos novos tempos?
A vetusta máquina de escrever pode ser uma solução. Ela serve somente para escrever e nada mais, sem distrativos. Não há internet, não há joguinhos e nào há o controle do Windows Media Player a todo momento para pular de MP3, nào há distrações: sou eu, a máquina e o pouco de concentração que a sertralina ou a rotina não me roubaram. É um esforço por exclusão. O que certamente será mais problemático será a transposição de um texto dactilografado para um blogue, por exemplo; mas ainda assim, hoje há subterfúgios como programas de escaneamento que reconhecem os caracteres e os traspõem ao formato digital.
Também no que toca à digitação, a máquina mostra seus problemas. Como se trata de um processo de composição totalmente mecânico, a acurácia ao dactilografar é essencial para que o texto não se encha de grosseitos erros de dactilografia como a imunda sobreposição de caracteres e também a atenção que se deve ter com a composição das frases, pois não há corretor ortográfico como no Word. Letra batida, letra posta no papel.
Além do mais, no meu caso, há um certo problema com escrever no computador; é totalmente psicológico, mas é um problema: trata-se da escolha das temáticas. É óbvio que não sei o porquê, mas corre nas minhas mãos uma espécie de pudicícia temática. Cito por exemplo: o único conto de temática que se possa considerar minimamente sexual saiu da máquina de escrever e não do teclado do computador. É estranho, mas é verdade. Acho que só consigo ser realmente livre na imperfeição dos caracteres da Olivetti Studio 44. Caso um dia (pretensão minha) tais textos sejam tomados por dignos de serem impressos em larga escala, há sempre a revisão especializada e o olho atento de um revisor que não seja um néscio.
26-12-2009
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94. Biju
02/12/2009 · 1 Comentário
Não me lembro de ter sido uma criança mimada ou chorona, daquelas que fazem escândalos homéricos; o oxigênio em casa sempre foi pouco para esse tipo de coisa e eu já tinha uma ficha corrida de agravos: era mexelão por curiosidade e isso já me valeu toda sorte de malefícios infantis, de bons tabefes à má fama no círculo expandido da família.
Era curioso como toda criança é e, digamos, tinha meus limites. Agora, pidão e manhoso, jamais. Das poucas lembranças que tenho antes dos meus cinco anos, nenhuma me aponta isso; tampouco meus pais, que me imputam até hoje várias façanhas, disso nunca reclamaram. Se eu não era pidão, realmente não sei como explicar o que pretendo relatar agora.
Antes de ocupar a casa onde moramos atualmente, dividíamos quintal com alguns familiares do meu pai, basicamente um tio dele com seus filhos e sua sogra; nós ocupávamos o fundo do terreno, uma casa isolada, no alto (o terreno era em aclive), em cuja frente havia um caquizeiro. Era um daqueles lotes que não existem mais nem em sonho, de quatrocentos metros quadrados, de quando a Vila Matilde era o fim do perímetro urbano. Pois bem, logo após casar, meu pai começou a juntar dinheiro para comprar o terreno onde hoje moramos.
A vida nos anos 80 não era lá muito fácil, mas também não era difícil como hoje. Com o giro da poupança a 30% mensais, era possível pagar o ordenado do mestre de obras e do ajudante; o mau era ter de correr no supermercado no primeiro dia do pagamento para fazer compras para todo o mês, antes que o dinheiro desvalorizasse. Era o Governo Figueiredo, tempo de abertura e de adoráveis frases de efeito do presidente-centauro.
Construção demanda trabalho árduo e pouco descanso. Meu pai trabalhava a semana toda no escritório de contabilidade de uma editora que já não mais existe e, no fim de semana, pegava o Chevette azul da família, fazia compras nas lojas de material de construção e tocava para a casa que começava a se formar. Eventualmente, íamos com ele eu e a minha mãe.
Certa vez, fomos somente eu e ele. Provavelmente deveria ser algo entre 1985 e 1986, porque a casa estava já quase pronta. Naquele tempo era bom; eu tinha algo entre quatro e cinco anos e podia ir no banco da frente. Cinto de segurança era coisa de filme americano. Meu pai me dizia: “Fica aí quietinho e não põe a cabeça e nem os braços pra fora!”. Eu obedecia ao meu pai cegamente; somente enquanto ele estava com os olhos pregados em mim. Mas eu tinha medo dos carros e da rua, então ficava quieto. Ninguém leva uma criança irrequieta numa construção, portanto, deduzo que o meu pai somente foi buscar ou deixar algo lá.
Íamos pela avenida Aricanduva; o semáforo que existe na esquina com a avenida Itaquera fechou. Segundo dizem (não entendo nada disso), esse sinal era e é ainda de um tipo chamado ‘trifásico’; consigo entender que são três fases, mas do quê? Sei que são fases demoradas. Por isso, quando o sinal fica vermelho, o trânsito fica parado por vários longos minutos, o suficiente para que surja uma legião de vendedores ambulantes com os mais variados produtos de acordo com a época.
Sempre havia o homem corpulento que vendia buques de flores murchas; depois se seguiu a época das mini-antenas de televisão. Em 1986 ainda não era tempo da abertura econômica, então o comércio do cruzamento resumia-se a alimentos. Àqueles alimentos de consumo rápido: salgadinhos e coisas secas. Não me lembro de ter visto garrafinhas plásticas de água mineral àquela altura; mesmo as latas de alumínio eram difíceis.
O Chevette azul reduziu a velocidade e ficou como o primeiro carro da faixa. “Puxa, por pouco a gente não foi…”, disse o meu pai. Lembro-me de que estava calor e havia também o vendedor de picolés. De repente, estalidos repetidos e altos; assustei-me. Um homem com uns sacos nas costas e com uma matraca nas mãos passava pelos carros e berrava: “Biju! Biju! Olha o biju!”. Creio hoje que, com tantos doces coloridos e açucarados, o biju não seja tão atrativo assim para as crianças; talvez nem naquela época. Não sei por que raios virei para o meu pai, sem sequer saber se aqueles canudos marrons eram de comer ou não e pedi que me comprasse aquilo. Ele sempre teve sérias restrições a tudo aquilo de comer que não é de casa: disse não.
Não me dei por vencido; meu pai tinha o coração mais maleável do que a minha mãe: “Por favor, pai; compra um pra mim…”. Ele me olhou desde cima e disse: “Não, porque você não vai gostar.”. Mas eu nem tinha comido e, afinal, eu não tinha que experimentar de tudo? “Ah, pai, compra…”. “Não, você não vai gostar… do que tem dentro… é recheado com repolho cozido”. Não sei se até aquele momento eu tinha a ideia exata do que era um repolho, mas o argumento foi mais forte. Ainda mais acompanhado do adjetivo correto: “cozido”; verdura cozida sempre me encheu de ojeriza. Aquietei-me no banco e o carro voltou a andar, subindo a avenida Itaquera.
Depois desse dia, de vez em quando, via surgir no lugar mais inesperado o homem do biju. Se não o via, distinguia o som da matraca no meio das minhas brincadeiras. A lembrança, indiferente do meio de invocação, visual ou sonoro, enchia-me de pavor. Assim como a minha mãe queria que eu comesse verduras e legumes, não tardaria o dia em que, encontrando o desprezível vendedor, ela me compraria um dos canudos e me faria comê-lo. Criei um medo absurdo da figura do vendedor que, com sua matraca, era como se fosse a morte e sua gadanha. Uma vez consegui fazer com que minha mãe mudasse de calçada porque o vendedor vinha no sentido oposto; óbvio que consegui disfarçar o motivo, pois, para mim, se ela percebesse, eu terminaria com o canudo na mão e admoestações para que comesse toda aquela porcaria.
Pois bem, cresci, entrei na escola primária e o homem do biju ainda aparecia de algum canto. Acho que durante a minha segunda ou terceira série, ou seja, em 1990 ou 1991, durante algumas semanas, um homem que vendia biju e algodão-doce ficou na porta. Evitava-o como se evita o diabo. Não podia vê-lo sem pelo menos ficar tenso.
Fui crescendo, cheguei ao ginásio. Achava estranho que em um mundo no qual as crianças – e mesmo os adultos – não eram afeitos a verdura cozida. Isso me intrigava, mas ao mesmo tempo caiu para o fundo da consciência; já conseguia ver e ouvir o homem do biju sem medo. Somente o nojo ficou.
Em 1997 fui estudar longe de casa. Pelo menos mais longe do que antes; fui fazer colégio técnico. Ali conheci gente que não valia um traque e amigos e foi justamente um desses amigos o responsável pelo desencanto. Era uma tarde de verão de 1999; estávamos na rua, voltando do almoço. Estudávamos de manhã, mas, como naquele ano teve uma greve dos professores relativamente longa, tivemos de repor algumas aulas. Voltávamos para a escola quando, ao dobrar uma esquina, surge a figura: o homem do biju, a míseros cinquenta metros, não mais. Apesar de eu só conservar o asco, naquele começo de tarde escaldante, parecia que a luz do sol relembrou os meus tempos de medo. Tive um calafrio.
Meu amigo se voltou para mim: “Vamos comprar biju?”. Fiquei lívido e dei um berro: “Caralho, como você pode gostar dessa porra?!”. Indignação era a palavra. Sentia-me traído; como um amigo meu poderia gostar daquela coisa medonha? Ele somente me olhou, tirou o dinheiro do bolso e deu ao homem que, nessa altura, já tinha nos encontrado. Assisti a cena imóvel; um momento que parecia ter durado horas de tanta tensão pela minha parte. Meu amigo virou-se e disse: “Olha, que você não goste de biju, eu entendo; mas precisa ficar nervoso assim? Parece até que viu um fantasma!”. Continuávamos parados no mesmo trecho de calçada e o vendedor já chegara à outra esquina, sumindo da nossa vista. Retorqui: “Meu, como você pode comer isso? Essa merda cheia de repolho cozido…”.
Pobre amigo. Foi a vez dele ficar atônito. Esquadrinhou-me atento e olhou para o saquinho plástico com três ou quatro canudos de biju dentro. Ficou alguns segundos sem falar nada, até que me disse: “O que você bebeu de manhã antes de sair de casa? Pinga? Repolho no biju?”. Insisti, perguntei novamente se ele ia comer mesmo aquilo, se ele gostava de repolho cozido. Eu estava quase às lágrimas. Meu caro amigo, já visivelmente irritado, sacou um dos canudos do saco e quebrou-o na minha frente. Tinha doce de leite com coco. A visão foi tão estarrecedora que ainda pensei que os flocos de coco visíveis eram, na verdadem repolho.
E é claro que, mesmo tendo explicado o possível do motivo daquela crença, não consegui escapar das chacotas. Ainda bem que àquela altura eu não lembrava porquê não gostava de biju; a chacota teria sido ainda maior.
Mesmo toda essa história ter ficado para trás, toda vez que me deparo com um vendedor de biju ou ouço a maldita matraca, não posso deixar de registrar um calafrio, tanto de medo quanto de despeito.
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93. Hedonismo rodoviário
24/11/2009 · 3 Comentários
Não gosto de dirigir. Pensando bem, tenho medo mesmo; medo porque a coisa é selvagem. Fechadas, brecadas, xingos, imbecis que não sabem atravessar a rua, fominhas. Por isso que as grandes cidades são chamadas de selvas de pedra: árvores de concreto e animais ferozes de metal e roncos.
Mas também tem a parte do “não gosto”. Não gosto de responsabilidades como ter de ficar vigiando os motoqueiros passarem a milímetros do meu retrovisor e ter de ficar prestando atenção ao fluxo de veículos e à pista. Nem ter de estacionar o carro preocupado com flanelinhas ou se ele vai estar lá quando eu voltar; só de pensar nisso tudo, meu coração se desalenta. E se bato o carro? Se o ônibus bate, desço e pego outro. E sou disléxico e distraído; não sirvo, em absoluto para dirigir.
Por isso prefiro o transporte público e me emputeço que ele não seja bom. Mas ainda assim, é melhor do que dirigir. Um lugar no ônibus vale algumas páginas de leitura ou a continuação do sono que está atrasado. No metrô, mesmo de pé, é possível ler, exceto nos dias de pane, quando é difícil mesmo respirar.
Quando se trata de viagens longas, prefiro o ônibus ainda mais. Nada melhor do que reclinar o banco, aproveitar o ar condicionado e a paisagem. Adoro olhar as campinas, presto atenção às placas, principalmente às de quilometragem para saber quanto passou de viagem e quanto ainda falta. Ou em qual direção estão as cidades de nomes mais curiosos, se estão a leste ou a oeste. Aliás, não sei qual o problema que as pessoas têm com os pontos cardeais. Toda vez que me refiro ao lado sul de algo, ou indico que certa paragem está a leste do ponto de referência, meu eventual interlocutor franze a testa em franca interrogação. Nem tomo conhecimento, simplesmente prossigo.
E se você dirige, concentra em si toda a tensão da estrada e não pode desfrutar da paisagem. Há trechos muito bonitos na paisagem paulista. Lembra-me agora aquele da Washington Luiz, nas proximidades de Itirapina, na subida da serra de São Carlos: formosos vales e planícies que se entrelaçam, alternando plantações e trechos de mata. Um deleite simples, sem a exuberância malabarística de outros biomas, que assombram pelo choque e pela impossibilidade de abarcar tudo com a consciência.
Voltando ao carro, alguns poderão opor-me que o veículo está sempre à sua disposição, que se pode sair a hora em que bem entender e que não precisa deslocar-se até a rodoviária e isso e aquilo. Nada disso supera a viagem despreocupada com direito a audição musical, cochilo, leitura e, dependendo da extensão do trajeto, uma paradinha para comer porcarias gordurosas de beira de estrada e esticar as pernas.
Outra coisa que evoluiu muito é a comida de beira de estrada. Antes, só havia pocilgas imundas que serviam café ruim e salgados de procedência duvidosa. Hoje, pelo menos pelas estradas que costumo rodar, há verdadeiros complexos alimentícios que não somente vendem comida duvidosa, mas também todo tipo de quinquilharia: souvenires ridículos, livros vagabundos de auto-ajuda e best-sellers corporativos, revistas do coração, vinhos, doces; potes monstruosos de toda sorte de doces, o inferno para os diabéticos. Tudo voltado para o viajor.
Agora, as rodoviárias são um capítulo bem a parte. Conheço algumas. A do Tietê é quase como se fosse um aeroporto, um zumbir sem fim de gente e barulhos indistintos, máquinas de café que emperram, guichês com filas longas e atendentes de quiosque com mau humor perene. Entendo; se é o inferno para quem fica ali meia hora, quarenta minutos, que dira para quem trabalha, todo o dia ali, vendo as pessoas que vão e vêm e ficar sempre no mesmo ponto. O Tietê é um caos habitualmente, mas vésperas de feriado é de fazer Virgílio e Dante fugirem desesperados. Mas há as rodoviárias amenas, como é (ou era) a de São Tomé das Letras: tinha uma banca-de-jornal-bomboniere-loja-de-lembranças, três plataformas e um guichê de passagens. Não me lembra agora, mas acho que somente uma viação fazia os trajetos para lá, o ônibus que ia de São Paulo passava antes por Três Corações. Só isso. A rodoviária era uma desolação gostosa; quente e mineral, porque tudo em São Tomé é feito de pedra.
A rodoviária de Peruíbe é naquele estilo terminal urbano anos 80, uma porcariada de vigas de concreto pré-moldadas aparentes e mal pintadas; e assim Americana, Itanhaém, Ubatuba, Caraguatatuba, Araraquara. Todas com cara de terminal urbano. Se bem que Araraquara tem piso de caquinho, o que me agrada. A rodoviária do Jabaquara, de onde partem os ônibus para o litoral sul paulista tem a disposição mais estranha que já vi: espaços estreitos e escadas e desníveis para todos os lados. A de Santos é um barracão esquisito.
E falando em Litoral, voltemos aos trajetos. Que beleza a serra do Mar não? É exuberante, mas daquela exuberância, como disse ali atrás, malabarística. É bonita como uma pirâmide humana sobre u’a motocicleta. Mas é bonita. A via Anchieta tem curvas de tirar a paz de qualquer motorista que, por conseguinte, tende a preferir a Imigrantes para a descida da serra. Quem desce de ônibus pode contemplar toda a festa da mata, os manacás em flor, a paisagem do estuário que se descortina pelos montes e até mesmo despenhadeiros de mais de setenta metros. Lembra-me de um trecho no qual uma ponte vence um vazio entre duas encostas e na junção dessa encosta, descia um véu d’água por quase cinquenta metros. Do ônibus foi possível ver isso; de carro, pela altura menor, seria impossível. O motorista não consegue desfrutar a paisagem, pois o descuido, em alguns trechos, equivale a um salto em quedra livre. Coitados.
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92. Via crucis
25/10/2009 · 4 Comentários
Provas são um massacre. Poucos discordam. Quem nunca teve u’a ameaça de síncope ou uma cagamerdeira antes de uma prova de Física no colegial? Ou da disciplina mais odiada? No meu caso era Física, dada por um professor nipônico que provavelmente já se foi desta para melhor.
Passei pelo colégio, pela faculdade; mas nada mais chato que prova de concurso público. O que de tais exames não é a sua dificuldade, mas os caminhos tortuosos que temos de percorrer para decidir sobre qual das alternativas é a mais correta. Eu vejo assim, pois, a primeiro momento, qualquer das alternativas parece-me adequada. Nunca respondo de pronto “é a D”, mas excluo as possibilidades das outras. Sempre sobra – espera-se – a resposta certa.
Hoje foi dia de enfrentar a prova para o Magistério municipal. Prestei as provas para as vagas de professor de Língua Portuguesa. Somente ontem, quando imprimi as referências do local da prova é que percebi o quão cedo teria de acordar: para a primeira prova deveria estar no portão do local às sete da manhã. Em miúdos: significa acordar às cinco e meia da manhã, mais cedo do que levanto para trabalhar, meia hora antes. E com um agravante: em pleno domingo.
Cinco e meia, no período do horário de verão, é céu escuro como se fossem três da manhã, mas em alguns instantes, os pássaros começam a anunciar o dia que ainda não pintou o céu. Dez para as seis já estava fora de casa. O bom da primavera é que ainda há aquele ar fresco da manhã, antes do dia quente. Fui para o ponto e peguei o micro-ônibus para a estação.
Quando eu era pequeno, achava que quando eu ia dormir, todos iam também. Achava que o mundo se apagava. Hoje, mesmo sabendo que se trata de uma meia verdade (porque a maioria está dormindo, mas também há muita gente acordada), espanto-me ao ver o micro-ônibus com quase todos os lugares cheios. Aonde vai essa gente? À missa? Acomodo-me num dos bancos livres e tenho de acompanhar, até a estação, a conversa fiada entre motorista e cobrador. O resto dos passageiros, para minha sorte e meu gáudio, ia num silêncio digno de igreja.
Chego na estação Tietê no horário. O local da prova é bem perto e em meia dúzia de passos, eis-me lá. Começa a primeira prova: toda balela da pedoburocracia derrama-se sobre mim. Fora a legislação municipal pedida. Afinal, que quer a Prefeitura? Um professor ou um arremedo de advogado. Há coisas que caem nessas provas que somente depois da admissão do professor é que deveriam ser passadas.
Sorte ou azar, a minha prova específica começava ao meio-dia. Quando deu nove e quinze eu já havia terminado a prova. Tinha quase três horas que não sabia como preenchê-las. Minto, sabia sim: ia ler; mas precisava estabelecer-me num local adequado.
No dia anterior, pensei em ir ao novo Parque da Juventude, construído sobre as ruínas da Casa de Detenção, que estava somente uma estação de metrô adiante. Acabei mudando de ideia muito menos por medo dos cento e onze fantasmas, mas porque se trata de um local aberto e o tempo seguia nublado.
Antes de prosseguir, telefonei para casa, avisando que tudo corria como o programado e para a minha namorada, pois, afinal, hoje era o nosso aniversário de namoro. Tudo do telefone público da estação, porque nas provas de concurso sempre implicam com os celulares e resolvi por bem, deixar o aparelho em casa.
Eu tinha livros na mochila. Dois. Peguei o metrô de volta para o Centro e desembarquei na estação São Bento, onde há, no lado oposto à Basílica, o Café Girondino. Além das várias recordações (fora ali que tomei o primeiro café com a Ju, dias antes de começarmos a namorar), o ambiente é de uma calma sem par. Tirando os dois britânicos que discutiam na mesa defronte à minha, naquele inglês Monty Python.
Café, leitura. O ônibus que pego para o trabalho todos os dias passa exatamente ali, na rua Boa Vista. Todos os dias eu vejo as janelas do Girondino que dão para o Largo de São Bento. Por um instante, achei que o ônibus passaria ali e eu, dessa vez dentro do café, me veria, num curto instante, olhando de dentro do ônibus para as janelas do café.
Como precisava estar às portas do local da prova somente às onze e meia, deliciei-me ali com um cappuccino, uma empada de camarão e palmito e uma lata de água tônica. Tinha comigo “A Ilha do Dia anterior”, do Umberto Eco, mas optei ali numa leitura nova: El pibe que arruinaba las fotos (O moleque que arruinava as fotos), do escritor argentino Hernán Casciari. Escritor esse ainda desconhecido nas plagas tupiniquins e que me fora apresentado certa feita pelo Orlando.
Estar sentado ali, no café, fez-me lembrar de quanto tempo eu não fazia aquilo sozinho. Quando estou sozinho em casa, nada me demove dos propósitos de inércia. Quantos concertos e exposições não perdi? Sempre é necessário que eu seja obrigado a sair para poder gozar de uma ocasião dessas, um amortecedor entre dois períodos de tensão, um vazio que precisava ser preenchido e acaba por mostrar-se jocoso. Pelo menos, hoje a Internet atenua essa perda e determinadas coisas (como arte, por exemplo) podem ser apreciadas virtualmente. Aliás, se não fosse a Internet eu jamais teria descoberto e me interessado por muitas coisas: língua catalã, música militar otomana, Lluís Llach… Dizem que a Internet é caminho para os pornógrafos infantis, para os hackers, e minha mãe sempre me admoesta: “Cuidado, cuidado por onde você anda!”. A Internet está aí: para o bem e para o mal. É um pardieiro de pornografia e tantas coisas, mas também permite acesso a coisas para as quais você teria de se deslocar milhares e milhares de quilômetros. Sejamos parciais!
Era hora de tirar a bunda da cadeira e voltar para fazer a segunda prova, a específica, de Língua portuguesa. Qual não foi o meu espanto, quando tive o caderno de questões na mão, ao perceber que todas (repito para que não se quedem dúvidas: todas) as questões eram baseadas nas medonhas teorias da linguagem de Mikhail Bakhtin e companhia limitada. Coisas que sempre me causaram certo asco. Onde está a gramática? Não se cobrou um único puto tópico de gramática. Só palhaçadas de canastrões e charlatães, de teorias comunicacionais, nem uma única questão que envolvesse diretamente elementos de gramática. É isso que querem construir com a nova escola: boçais. Fazer a disciplina de língua portuguesa uma cretinice sem tamanho. Nada de pensamento, somente categorias pré-prontas, como comida congelada para micro-ondas comparada a algo feito e depurado no fogo do fogão. Já disse Drummond: são tempos de fezes.
Volto para casa, quase no meio da tarde repensando todo meu pensamento em função dessa prova. Somente vem a confirmar o que já é patente: a destruição paulatina do modelo de ensino que existia em troca do duvidoso que resulta em nada. Palmas para a Secretaria da Educação (ou seria da Deseducação?) por um petardo desse tamanho. Somente burocratas imbecis familiarizados como essa caralhada toda entrará no magistério. E serão péssimos professores.
A dor de cabeça me domina. Como e vou tirar um cochilo. Nada melhor e recurso único para os momentos de angústia.
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91. Notas de aula ou Apologia ao artigo 5º
24/10/2009 · 4 Comentários
25 de setembro de 2008, quinta
Auditório da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação. Depois de uma tediosa apresentação dum grupo de música “afro-brasileira” (o que quer que isso signifique), a mesa redonda 17 tem início com o anúncio de que a conferencista (uma das) se atrasará, e olhe que já são quase oito! O tema parece igualmente cansativo: o currículo que a questão das minorias. Quando vi o programa da Semana de Educação, essa mesa redonda (a 17) foi a que me pareceu menos tediosa e menos favorável a uma soneca. Além do mais, é bom saber o que pensam os teóricos do seccionismo social, que tanto enfatizam a questão das minorias… o ideal seria pôr, preto no branco, que somos todos iguais. Ops, perdão pela expressão mal posta.
Escrevi isso enquanto agruardava o início de uma atividade na FEUSP. Depois, a coisa se mostrou muito pior. Apareceu uma mulher da Universidade de Brasília que culpou o ‘eurocentrismo’ por todas as nossas mazelas. Bem, minha vontade era perguntar se ela queria ir para a África viver como bicho. A Europa nos deu as instituições e os estudiosos que seguem essa linha revisionista, ou seja, de imputar aos nossos colonizadores somente as culpas do processo, esquecem-se de quem nos deu o viver civil e a origem das nossas instituições. O Brasil é um país que descende das tradições europeias e a história da cultura miscigenada não passa de bazófia.
Identifico cultura com língua. Falamos português, não exatamente o português peninsular, mas ainda o é. Alguém fala fulani? Ibo? Iorubá? Uma centena de empréstimos lexicais não justifica uma cultura miscigenada, trata-se, ao invés, de usar termos mais à mão por proximidade física, uma penetração linguística. A lenga-lenga do multiculturalismo somente serve a nos dividir todos os brasileiros. Já dizia aquela divisa: Divide et impera. Temos de ser iguais, nada de sobredireitos e sobrelegislação, o que vale para um tem de valer para o outro, independente de cor, raça, credo e orientação sexual. Ainda mais essa última, que considero assunto de foro privado, não assunto de Estado.
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90. Muito além do visível
20/10/2009 · 1 Comentário
Encontrar alguém no metrô é uma coisa que, apesar de corriqueira, tem lá seu grau de impossibilidade tácita. São seis vagões com muita gente dentro e cada vagão tem quatro portas. Pode ser que alguém conhecido seu viaje no mesmo vagão e você sequer o veja. Ou pode acontecer de o elemento conhecido entrar exatamente na sua frente, principalmente se for alguémque você não gostaria ver pintado de ouro.
Bem, o caso é outro. Trata-se que encontrei um colega de colégio; um desses tipos apagados e até meio taciturnos que ficam pelos cantos, sob as sombras e costumam ir bem nas matérias que envolvem cálculos (o que no colégio técnico não significava pouca coisa) e penam nas matérias mais humanísticas.
Pois bem, estava eu no vagão, dependurado, quando sinto um cutucão no ombro. Viro-me e eis o elemento, todo sorridente. Lembrei-me de súbito do rosto, mas não daquele sorriso, mais destoante do que um corvo no meio dos pombos.
“Fulano! Como vai?”
“Vou bem, Fulano; e você?”
Depois da troca de amenidades e inúteis impressões do cotidiano, vêm as questões sobre os estudos.
“E aí, que tem feito da vida?”
Soube que nosso amigo Fulano está fazendo um desses cursos de Ciências Argentárias. Ou Administração ou Recursos Humanos ou Comércio Exterior.
“Hum. Que interessante.”
Fulano começou a relatar-me pormenores dos seus serviços.
“…sim, e a gente (a firma) tem quatro escritórios, dois fora e dois instalados junto ao pregão…”
“Ah, é uma corretora?”
“Não, é um call-center.”
Tantos volteios para poder me dizer que fazia uma faculdade virtualmente de nada e que trabalhava como atendente de telemarketing, como tantos coitados por aí. O pior era o sorriso luminoso na cara do Fulano. Ele comprou todo o ideário da empresa (pertence a um grande empresário e que tem uma coluna no editorial do jornal) e acreditava piamente na justiça e correção dos pouco claros mecanismos de “carreira” da dita empresa.
“O chefe me disse que haverá um grande processo de remanejamento… me disse em segredo. A equipe será reduzida drasticamente, mas eu sei que vou ficar, porque ele me disse.”
“Sei.”
Despeço-me, porque chegou a minha estação. Fico pensando em como as pessoas compram qualquer verdade que lhes pareça minimamente conveniente. Antes era a religião, hoje é o mercado e a tal carreira. O ser humano tem um gostinho masoquista em ser manipulado, assim não percebe (ou finge não perceber) que é manipulado. Alguns me parecem sinceramente ingênuos, assim como esse colega; mas o seu sorriso de quem teve o cérebro lavado e que foi insidiosamente convencido pela publicidade, pela mídia e pelo mundo de que aquela é a única via correta, assustou-me de sobremaneira. Foi vendido às prestações e sequer perceber.
E antes tivesse vendido somente “o corpo”, ou seja, sua mão-de-obra; o que, hoje em dia, é quase inevitável. O problema é ter vendido a consciência, ter comprado verdades e ter se imbuído delas. Ou seja, trocamos nossos deuses, movemos o centro da vida, antes vivíamos a vida, hoje, vivemos para financiá-la, mas não a vivemos, pois gastamos o tempo somente em financiá-la. Antes, pior: vivemo-la mal. E vivemo-la tão mal que sequer percebemos o poço no qual caímos, isso é o mais assustador: a falta de consciência da precariedade, de que voltamos a ser animais numa lei do mais forte de cunho financista. Essa alienação geral não roda por si: há inúmeras instituições que a querem assim, a começar pelo próprio governo. Quem gasta muito tempo (ou todo ele) preocupado somente em manter-se não consegue discernir o absurdo que os cerca e a percepção desse absurdo dói: a percepção ou não existe (a maioria dos casos) ou é ignorada (minoria), situação na qual o Fulano cria uma percepção paralela, o famoso mundinho cor-de-rosa onde ele é o centro e o que lhe diz respeito e tudo é perfeito.
O Estado e a política tiram altos dividendos dessa situação: a alienação política lhes favorece.
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89. Centelhas de horror
19/10/2009 · Deixe um comentário
O homem chega ao escritório. Ainda não há ninguém (ele precisou sair mais cedo, pois chovia e, quando chove, a condução fica impossível). Senta-se e a primeira coisa que lhe vem à cabeça é ligar para casa e perguntar se a mulher está bem (faz duas horas que ele saiu de casa) e perguntar sobre o filho, se foi para a escola como se deve. Logo entabula uma conversa sobre deveres tácitos que as pessoas nunca sabem quando fazê-los. O alvo era a mulher e o filho, mas fazia isso através de indiretas dissimuladas, como se a mulher soubesse, de fato, que ela era o receptor final da mensagem enviada. Curioso discurso que assim se arranja: como sendo luz as palavras, tem de refletir num espelho que, na verdade não é um espelho e sim uma simples moldura que deixa os raios de luz passar reto; depois, refletem-se por um espelho (dessa vez verdadeiro) que os devolve a um anteparo imediatamente ao lado do primeiro espelho, o falso. Nomes citados, nunca os dos reais envolvidos, como um jogo barroco de adivinhação; silogismos: “todo vagabundo faz isso, se fulano (nossos incógnitos dissimulados) faz isso, fulano é vagabundo. Meia hora de telefone depois, o homem pousa o fone na base e começa a vagabundear atrás de café com a alma leve do dever cumprido e do controle exercido. E é óbvio que em sua casa, naquele momento, a mulher se vira para se aconchegar junto ao amante que escutou todo o palavrório no viva-voz fazendo caretas engraçadas. Ah, casamentos que estão sempre por um fio por causa de silogismos ranzinzas.
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88. Vulnerant omnes, ultima necat
16/10/2009 · 2 Comentários
Que olhos querem desgrudar-se do sono pastoso em que estão metidos, de banho-maria no vinho noturno? O despertador retine qual bater de armaduras. Sobressaltada, u’a mão escapa-se do grumo feito pelas cobertas e desliga o lestrigão metálico. No escuro profundo das mal batidas cinco e trinta, continua a estalar incessantemente no ar o tique-taque do despertador de números romanos (com IIII no lugar de IV). O corpo, ao qual pertence (hipoteticamente) a mão, permanece inerte. Era um velho hábito: desde que se aposentara, continuava mantendo no despertador – a quem nunca faltara, um dia que fosse, a mão a dar-lhe corda – o mesmo horário de sair das cobertas para enfrentar a frialdade do ar naquela fusão marginal de campo e cidade, e ir ao trabalho. Não precisa mais deslocar-se ao porto e berrar ordens para os estivadores. Acabou-se tudo aquilo. Agora é esperar o sol raiar, sentar-se no sofá roto, no meio da sala da casa vazia. A mão tira, dentre os coxins, a garrafa de aguardente. Dilui-se a rude luz nas retinas e o jogo de luz e poucas sombras na sala inundada de sol. Dilui-se a realidade acre e a percepção arenosa do mundo. Pousa a garrafa no chão e, pelo mesmo espaço entre os coxins, a mão puxou a Bíblia de capa de couro preto e zíper, cheia dos mesmos dedos e puída. A mão abre num trecho aleatório e sempre o mesmo ou muito próximo do mesmo. Os olhos reconfortam-se e o restante do corpo estala-se sob o sol, como todos os dias.
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