385. Fim

Depois de mais de cinco anos, este blogue deixa de ser funcional. O nome pretensioso cansou, as temáticas cansaram; tudo aqui tem bafio de armário velho.

Por isso, informo que há um novo e lustroso blogue que substituirá este. Trata-se do Paris do Brejo.

Até daqui a pouco.

384. 1992

Foi na campanha do plebiscito de 1992, quando escolhemos o sistema de governo. Um presidencialista — ou parlamentarista — desenvolveu a seguinte pérola retórica:

“Monarquia? Um absurdo! E vejam vocês a que tipo de disparate ainda estamos sujeitos pelas heranças de um regime caduco. Em Belo Horizonte [creio que fosse], na praça Tiradentes [quase certeza] existe um busto de dom Pedro I. O neto da mulher que mandou enforcar Tiradentes [dona Maria I, rainha de Portugal].”

É com essa casta de bocó que temos de tratar todos os dias; esse tipo de papagaiada discursiva está por toda parte. Não sabia que culpa era transmitida pela carga genética ou por herança legal. Condenação por atavismo. Não tem argumentos sólidos? Jogue merda no oponente: é a oratória do chimpanzé.

383. A redação

Lembro-me de um fato curioso. Acho que foi na 6ª série — sabe Deus a que equivale hoje —, a professora nos passou uma folha mimeografada para fazer uma redação, cujo tema era “A cidade do Futuro”. No alto da folha, uma ilustração tosca de uma cidade futurista, ao estilo de “Os Jetsons”. Ignorei a ilustração e fiz a redação do meu jeito. E fui o único, de umas quatro salas, a fazer daquela maneira. Todas as outras crianças haviam se baseado na figura. Resultado: tive de lê-la várias vezes, em vários lugares, e era apontado como exemplo de criatividade. Aquilo se repetiu pelo menos umas dez vezes. Não aguentava mais recitar aquele texto pastoso; a folha começava a ficar frágil e pegajosa por conta do suor das minhas mãos.

Passadas umas duas semanas e com o assunto já devidamente sepultado, achei a redação toda estropiada no fundo da mochila. Rasguei-a sem piedade e despachei-a para o mundo inferior.

382. O Estado petista

A última nesga de decência morre no Brasil. Com o voto do Ministro Celso de Mello favorável aos ditos “embargos infringentes”, a sensação de impunidade torna-se quase material. Não é culpa exatamente do ministro, que, ao que parece, atém-se à legalidade estrita. O vício mora entre os espaços tipográficos das palavras das leis; o sistema já vem com brechas comodamente instaladas, que são aproveitadas até o último centímetro.

O resultado desse julgamento patético protagonizado pelo STF é a vitória quase definitiva do PT. Não obstante todos crimes cometidos contra o Estado, contra a população, contra a República, contra o próprio sistema democrático, o partido das histórias mal contadas conseguiu deturpar a verdade mais lúcida e vai sair como vítima. Seus ataques à imprensa e à oposição serão ainda mais virulentos, pois agora serão mártires “perseguidos pela justiça burguesa”.

Seu plano de instalação no poder continuará com mais força: a supressão do Senado — aventada por vários de seus membros —, o desarmamento da população, o Estado do denuncismo, a criminalização do empregador como vilão da relação trabalhista, o uso dos movimentos sociais como milícias. Tudo guiado pelo seu líder supremo, Lula, um Lech Walesa às avessas que sempre deve ter sonhado com um regime de partido único. A democracia só convém para chegar ao poder, depois, é uma cerimônia ridícula.

É a estratégia não só do PT, mas da esquerda em geral: comer pelas bordas até, finalmente, dominar todo o corpo político. Afinal, as revoluções, como as de 1917, além de caras, têm o ônus da convulsão social que costuma vir logo após. Domar as instituições, ridicularizá-las até que a culpa seja atribuída a elas e não a quem está no poder; instalar um regime de exceção sem dizê-lo. Abraçar causas “sociais” que servem apenas para subverter a base da sociedade, desagregando-a: sem consciência de povo, o que poderá o povo fazer?

Eis o Estado petista. 

381. Sobre a morte

Faz um tempo que tento digerir a sua morte. Repentina, como um grito trincando o silêncio do campo, a xícara retirada de um naufrágio. Nunca fui sentimental com isso de morte. As pessoas morrem, faz parte do ciclo: nascer, crescer, reproduzir-se, envelhecer e morrer. Temos nossos processos de luto; uns, mais dramáticos; outros, momentâneos, leves.

A morte me causa não o desespero, mas a sensação de vazio, aquilo que não tem melhor expressão que o silêncio, o torpor, a alma concretada, o infinito do espaço.

Quando a morte visita — a imagem da sinistra figura de capuz preto e foice na mão não me abandona — alguém jovem, a sensação de torpor é ainda maior.

Lembro-me de quando você imitava velhos sem dente, imaginando-se velho. Aquela velhice caricata, que parece um futuro remoto. E você não ficou velho. A notícia chegou como um acidente de ônibus, do nada, nem mesmo o barulho da brecada.

Isto tudo deveria ter virado um poema-homenagem, mas não coube. Qualquer palavra fica diminuta, ridícula; as imagens são malfeitas. Ficou apenas esse silêncio de lápide.

380. Informação é tudo

Informação é tudo

Muito tem se visto por aí, até mesmo com projetos de lei, tentativas de proibir a comercialização e posse de armas de fogo no Brasil, matéria que, inclusive, foi assunto de referendo em 2005.

É curioso como certos legisladores são extremamente néscios de suas funções — ou valem-se do álibi da ignorância — e continuam editando projetos de lei e emendas ao famigerado Estatuto do Desarmamento.

Naquele referendo, o povo já decidiu pela continuidade da comercialização de armas e munição, manifestando um desejo legítimo de autodefesa frente a um Estado incompetente/conivente com a violência à pessoa e ao patrimônio.

Folheando a obra “Direito Constitucional Esquematizado”, do prof. Pedro Lenza, a resposta óbvia, mas que muitos insistem em não ver: qualquer alteração legal que vá contra a decisão do referendo — ou plebiscito — é flagrantemente inconstitucional, uma vez que desrespeita a vontade popular, figurada nos arts. 14, I ou II, c/c o art. 1º, parágrafo único da Constituição Federal.

O prof. Lenza conclui que, nesse sentido, a democracia direta prevalece sobre a democracia representativa, o que me parece justo, principalmente em um país em que os políticos agem mais em nome de interesse partidário e pessoal.

Afinal, a quem interessa o desarmamento? O bom-mocismo não convence.

379. Liberalismo e algumas colocações

Aqueles que criticam os liberais — ou seja, os adeptos do liberalismo econômico — geralmente fundamentam suas falas em argumentos que apelam à solidariedade, como “É função do Estado o bem comum”, “É criminoso deixar as pessoas à míngua em nome do capital” e aí logo entram os mecanismos estatais de auxílio social: legislação trabalhista, serviços de saúde, previdência social, ou seja, “garantias” ao cidadão.

O indivíduo que postula uma posição liberal ganhará apodos do tipo “insensível”, “lacaio do capital”, “fascista”, “entreguista” e mesmo coisas menos lisonjeiras.

Em linhas gerais, liberalismo é uma filosofia política que preconiza liberdade intelectual, religiosa, política e econômica. Não se abre mão do Estado, característica que o transformaria no anarquismo.

A vertente mais interessante e prática do liberalismo é o dito econômico. Os outros são consequências indiretas de sua ação sobre a sociedade. No liberalismo econômico, o que se tem em mente é basicamente a não intervenção estatal no que tange às relações econômicas. Os opositores dizem que esse tipo de “abstenção estatal” traria miséria, desigualdade e exploração, por isso a necessidade de o Estado regular determinadas relações.

O Estado brasileiro é um organismo contaminado por essa paranoia de regulação estatal. Há lei para tudo, agências reguladoras, fiscais, gerentes; o Estado no Brasil é exemplo de quanto uma sociedade que burocratiza suas relações econômicas e institucionais pode tornar-se corrupta. E não me refiro apenas à corrupção “grande”, de somas vultosas, mas também da pequena, como “molhar” a mão do guarda para evitar uma multa. O pequeno corrupto é tão vil quanto o grande corrupto, mesmo que não enriqueça. A grande bronca das leis brasileiras — e consequentemente da sociedade que as origina — é o enriquecimento. A condenação aparente é contra o ato, mas o que realmente se condena é a riqueza, que é condenada mesmo quando não há crime. Quanto já não lemos por aí que a culpa das mazelas é dos ricos, como se eles não contribuíssem em nada para a sociedade. As fortunas surgem de algum tipo de esforço, que move a economia. A existência de um rico prevê a existência de todo um suporte de serviços, que mantêm certo número de pessoas.

Em compensação, um sentimento messiânico toma conta do Estado brasileiro: o de querer prover a todos condições econômicas mínimas, fazendo do próprio Estado agente desse movimento, o que é um erro conceitual grave. A ascensão socioeconômica dever ser, sim, algo estimulado, mas não com a doação direta de recursos à população. No Brasil, esse frágil esquema de redistribuição de renda somente tem causado a estagnação econômica de certas áreas e a criação de uma consciência estadólatra, o Estado que tudo provê — ou provê o mínimo — arrancando do cidadão a livre iniciativa. Afinal, se ele tem o mínimo sem esforço algum, por que iria ele atrás de mais? Está-se criando uma consciência negativa de trabalho: se antes ele era visto como o motor do progresso material, hoje ele é visto por uma parcela significativa da juventude como “coisa pra trouxas”, já que se pode viver com auxílio estatal.

Como dito mais acima, o rico e suas indústrias ou empresas mantêm uma quantidade de pessoas em suas atividades econômicas, remunerando seu trabalho. Há setores da sociedade que creem injusta essa relação e querem substituir os empregadores pelo Estado, com todas as relações econômicas reguladas pelo Estado, pelo “social”, o socialismo. E já se viu o que acontece nas sociedades que, em algum período de sua existência adotaram práticas similares: uma crise econômica e moral que terminou com o colapso do sistema socialista.

378. Desalento

Uma postagem do Facebook serviu de base a este texto, feito com certa pressa para tapar um buraco deixado por um colunista. Perdoem-me de antemão por qualquer imprecisão teórica e lembrem-se: é um artigo para o público em geral, com toques contados.

* * *

O motivo de o socialismo arregimentar a juventude é o seu canto de sereia. Quem não quer a extinção da miséria e o fim da injustiça social? O problema reside nas soluções que os teóricos e burocratas criam para chegar a essa situação, soluções que passam pelo controle estatal de toda a vida civil e econômica de uma nação e que, pela complexidade dessas relações, mal administradas pelo Estado, geram falhas de abastecimento e corrupção.

A teoria é linda, mas tem um erro fatal: não considera o sentimento e as vontades do gênero humano.

As manifestações que temos visto país afora desde meados do ano vão nessa tendência, embora nem todas se declarem socialistas, pedem mais Estado na vida civil, mais intervenção. E o Estado veio com a sua pior face: a valsa dos cassetetes e as cortinas de gás.

Por que essa estadolatria? Por que a crença ingênua de que o Estado tem condições reais de prover todas as necessidades da sociedade?

O “bem comum”, a res publica, tornou-se não apenas um balcão de negócios escusos, mas o catálogo dos nossos piores vícios enquanto nação. O jeitinho, os envelopes recheados, os apertos de mão na penumbra, as manipulações legais e ilegais que se operam no seio da coisa pública, justamente por quem deveria salvaguardá-la.

Não valem de nada manifestações, não adiantam eleições, nem quebra-quebra, golpes de estado. Enquanto o Volksgeist — o espírito do povo — tiver como determinantes nossos piores e mais baixos instintos, nada mudará.

O que sofremos, além de uma crise política e material, é uma crise moral, muito mais grave e que não será sanada com ações do Estado.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 8/7/2013.

377. Evolução religiosa

A relação com o sagrado não é simples e rege-se pelas vivências de cada um. Numa visão simplista, é possível categorizar um caminho crescente da relação do homem com a espiritualidade.

1) O primeiro estágio é o da ignorância geral — é preciso cuidado com esse termo, pois, entre nós, virou ofensa; trata-se apenas de “desconhecimento”. O homem nasce relativamente do mesmo jeito há muito tempo, ou seja, com as capacidades cognitivas que vão sendo preenchidas com valores, inicialmente binários. Por isso grande parte das religiões são oposições entre o bem e o mal. A criança, quando começa a assenhorar-se dos valores do mundo e perguntar pelos porquês, tende a montar uma visão maniqueísta por conta das respostas simplificadas que os adultos lhe dão. “Isso é feio”, “É ruim”, “É bom”.

Tendo em consideração que a religião é o conjunto das primeiras tentativas do homem em explicar o mundo — a religião é a mãe da ciência —, os fenômenos considerados bons — chuva, crescimento vegetal, luz solar — passaram a ser objetos de culto e os maus tornaram-se símbolo da ira ou da maldade — tempestades destruidoras, enchentes etc.

O homem — tanto na sua infância histórica como, atualmente, na sua infância intelectual — tende à “fé cega” nos fenômenos e na oposição entre bom e ruim. É a forma mais rudimentar de fé, provavelmente presente nos primeiros cultos que a Humanidade criou.

2) Principalmente depois do Renascimento, a religião passou a ser posta no campo oposto à ciência. Logo, cientistas, filósofos e intelectuais, com intuito de racionalizar as relações humanas, consideraram por bem deixar o pensamento religioso, baseando-se em verdades naturais, ou seja, as factíveis, presentes, mensuráveis. Todo pensamento que daí deriva, leva ao agnosticismo — principalmente em sociedades em que a fé é instrumento burocrático do Estado ou exerce influência sobre ele — ou ao ateísmo — em sociedades em que a religião, vista sob a óptica de sua associação ao poder ou ao liberalismo excessivo de seu clero, passa a ser considerada nociva. Foi o que ocorreu na Revolução Francesa.

3) Embora o ateísmo/agnosticismo continue a ter um valor positivo na sociedade moderna, pois seus adeptos são considerados “inteligentes” e se encontrariam “acima” das “amarras” religiosas, é notório que o homem, depois de vagar algum tempo sem dar importância ao campo espiritual, acabe avançando um estágio — muitos dirão “recuar” —, e vão em direção às tradições religiosas que lhe são mais familiares; só pode ser considerado uma regressão se o indivíduo cair novamente numa visão religiosa maniqueísta e rudimentar. Muitas vezes, o desespero pode impelir as pessoas nessa direção.

E tal opção pelas tradições, longe de ser retrato da ignorância, demonstra uma superação e põe em acordo novamente espiritualidade e ciência, trazendo uma fé que, longe de basear-se em impulsões maniqueístas alavancadas pelo desespero, é fruto de uma maturação espiritual e é altamente intelectualizada, pois seus adeptos vão além da fé e buscam o estudo da espiritualidade por meio dos pensadores e escritos legados por uma religião específica. A vida religiosa deixa de ser uma obrigação e passa a ser uma vontade.

376. A morte dos outros é refresco

Espera-se piedade para com os moribundos. Também para gente afetada por doenças agressivas que, cedo ou tarde, vão engrossar o grupo dos que vão se extinguir enrolados em lençóis hospitalares mal lavados.

O ser humano — ou o brasileiro, ou os nossos vizinhos, parentes — tem isso da santificação do sofrimento. A doença santifica, limpa reputações. Quando eu era criança, os mais velhos — não esses mais velhos de hoje, hippies que vivem de reflexos do barato de ácido — costumavam dizer que não se deseja a morte alheia, um sentimento sebosinho de catecúmeno que se arrepende do desafogo sexual.

Por que a piedade para quem somente se arrepende no fim, na situação irremediável, quando não há mais chance de uma reabilitação moral? Ora, não é problema nosso. Que encomende a alma e aguarde a Sanção.

375. O caubói do Opalão

É um meio de tarde de domingo. Em uma cidade onde tudo fecha, sobra pouca coisa pra fazer. É nesse ensolarado tédio que o Opalão prateado aparece. Para jeitosamente no estacionamento do posto de gasolina; de dentro, sai um sujeito passado meio tempo da meia idade, com chapéu de caubói e botas e cinto do mesmo figurino.

O caubói do Opalão fica encostado no Opalão com o rádio ligado, tocando sertanejo universitário. Sozinho, saboreia a música e a cerveja em lata. Fica ali até o sol se pôr. Entra no carro e vai embora.

374. A inglesa do Butantã

Aprendeu inglês com o pai, que era inglês. Vivia de bicos: tradução, intérprete. Ela não fez faculdade. Cursou um semestre de Letras na USP, mas não aguentou o pedantismo. Lia Shakespeare, Milton, Blake. Apesar da apatia, seu rosto irradiava quando começava a recitar “And did those feet in ancient time…”.

Herdara do pai a folclórica fleuma inglesa. Não era moça de rompantes e os rompantes a enojavam. Tinha pavor a escândalos. Quando quis sexo pela primeira vez, encurralou um colega de colegial com os olhos. Quando quis casar e deixar o pai e sua administração parlamentar, casou. Como Rhodes, ela precisava de um continente novo.

Casou não com o mais bonito ou com o mais inteligente, mas com alguém que não a irritasse, que não exigisse afeto em excesso. Casou com um analista financeiro em começo de carreira, que não exigia muito e ainda trazia uísque bom para casa.

Amava o silêncio. Eventualmente cantava “And did those feet…”. Não era cantora, mas não desafinava. Ajudava o marido eventualmente, quando ele recebia visitas do exterior.

E permanece assim, amarelando-se com cigarro e café.

373. A reforma política

Ontem, a senhora Dilma Vana Rousseff, presidente da República ‘Federativa’ do Brasil, anunciou sua intenção de promover um plebiscito para convocar uma ‘constituinte’ para efetuar a tão propalada reforma política. A forma como as coisas têm se desenvolvido me leva a crer que se trata de um ato populista, recheado de desespero.

Primeiro, tal declaração vale-se de um momento de convulsão social — as manifestações que pipocam pelo País todo — e todo processo eleitoral num período como esse dará vitória a decisões populistas. Ou seja, certamente a ‘constituinte’ proposta tem grandes chances de ganhar.

Nos moldes propostos, teríamos um parlamento duplicado por um período — “certamente inferior a quatro anos” —, o que não apenas trará o dobro de gastos, pois, ninguém vai querer eleger-se de graça para tal façanha, mas desvirtuará o legislativo “principal”. A duplicidade do corpo parlamentar trará certos desconfortos políticos, uma concorrência entre o parlamento oficial e aquele eleito para a tarefa específica.

Segundo, tal ‘constituinte’ é absolutamente desnecessária. Uma comissão do parlamento bastaria para resolver o assunto. A ‘constituinte’ é apenas uma manobra de distração e a reforma política que sairá dela será falha, se é que sairá apenas a reforma política.

Terceiro, o uso do termo ‘constituinte’ está sendo usado de maneira demagógica. Constituinte é uma legislatura que tem a função de fazer uma nova constituição. Mesmo nas constituintes anteriores — 1946 e 1986 — não houve duplicidade do parlamento. E, convenhamos, uma nova constituição dá muito mais trabalho. As alterações oriundas da reforma política seriam facilmente alocadas com uma proposta de emenda à Constituição (PEC) e alterações na Lei Eleitoral. Em miúdos, é muita brasa e pouco fogo.

Será que o objetivo da ‘constituinte’ é apenas a reforma política? Não seria um pretexto para uma nova Constituição?

372. O último sertanista

Araraquara era um lugar limpo nos anos 40. O Centro, claro. A Vila Xavier e as chácaras ficavam à mercê das lufadas de pó, pois estavam fora da civilização. Bastava passar a linha do trem; era outro mundo.

Neste outro mundo morava o tio Jorge. Não o conheci, morreu pelo menos dez anos antes que eu nascesse. Mas era um dos vultos da família, aqueles parcos vultos das famílias de classe média baixa, que tentam, de alguma maneira nobilitar-se, criando seus próprios jõoes-ramalho e bartiras.

Nunca vi fotos do tio Jorge; não sei se existem. A mim, chegaram apenas os prodígios de um bon vivant caipira.

Antes de mais nada, estabeleçamos exatamente o parentesco. Tio Jorge é para facilitar; ele era meu tio-bisavô, irmão de uma das minhas bisavós paternas. Mas ninguém se refere a tios-bisavôs, tios-trisavôs. É tio e basta.

Tio Jorge morava na vila poeirenta, perto da estação de trem de Araraquara. Eventualmente ia de trem à Capital, visitar a irmã, minha bisavó, e era nessas ocasiões que meu pai ouvia suas façanhas.

Embora não tivesse ocupação fixa, Tio Jorge tinha uma caminhonete Ford. Na estação seca, comprava montes de todo tipo de bugiganga: aviamentos, baldes, sabão, cachaça, carne seca e o que mais pudesse achasse. Ajeitava a carga no Ford e tomava a estrada, rumo do poente, numa época em que as pessoas faziam os trajetos entre as cidades de trem.

As estradas então eram apenas picadas que ligavam os nascentes vilarejos de noroeste e oeste paulistas; havia ainda muitos índios e algumas tribos hostis. Tio Jorge tinha salvo conduto nessas regiões de civilização incipiente. Parte das mercadorias era para o pedágio indígena.

A guerra devorava a Europa; Tio Jorge devorava as ilhas de sertão que existiam entre as novas cidades. Chegava a um ponto determinado na fronteira com o Mato Grosso e atravessava o rio Paraná de balsa. Dizia que era o trecho que mais dava medo.

Depois do rio, Tio Jorge seguia para Campo Grande. Abastecia-se com víveres e outras bugigangas e continuava até a fronteira paraguaia ou a borda sul da bacia amazônica, não sei ao certo. Uma semana de picadas. Às vezes, tinha de descer do Ford e reabrir a estrada tomada de mato. O último sertanista dormia na caminhonete, agarrado a uma espingarda de caça, sempre carregada.

Finalmente chegava a uma clareira maior. As crianças da tribo mal viam o carro e começavam a fazer escarcéu, alertando os adultos da visita anual. Tio Jorge era esperado e tinha uma rede a sua disposição. Ficaria os próximos quinze dias entre os índios.

Ignoro de que etnia seriam aqueles indígenas. Tio Jorge tinha rudimentos daquela língua, pois eles não falavam português, mas qualquer informação a respeito jaz no Cemitério São Bento, em Araraquara, onde Tio Jorge espera o juízo final.

Era recebido pelo chefe da tribo e recebia uma vênia do pajé. Depois, acomodava-se, comia, conversava do tempo, da colheita. Somente no dia seguinte as negociações começariam.

O novo dia chega à aldeia e os índios entregam-se aos seus trabalhos habituais. Vão caçar, pescar; as mulheres entregam-se à confecção de cestos de palha. O pajé chama Tio Jorge e eles vão para uma estrutura especial, uma oca separada das demais, que funciona como santuário e morada para o pajé. Sentam-se ao redor de uma fogueira que é apenas cinzas. Logo chegam o chefe e outro índio parrudo, auxiliar do chefe. Ao que parece, trata-se de um cargo rotativo, pois cada ano é um homem diferente, sempre robusto.

Todos sentados ao redor da fogueira, o pajé aviva o fogo com gravetos separados para tal fim, e bate palmas. Três vezes. Uma mulher sai correndo de algum lugar com uma cuia nas mãos e para na porta da oca. Não lhe é permitida a entrada. A cuia é pega pelo auxiliar do chefe.

O pajé reparte o conteúdo da cuia em três cuias menores, uma para cada homem. Dentro, uma bebida viscosa, esbranquiçada, com várias folhas mortas e insetos que caíram na mistura enquanto ela fermentava a céu aberto. Os índios a chamavam de caxiri; era feita a partir da mandioca, cozida e mascada pelas mulheres e meninas virgens da tribo e era muito alcoólica. O aspecto era repulsivo, mas, sem a bebida, não havia negociação. Depois de umas três ou quatro rodadas de caxiri — parece que o número era determinado por algum sinal visto pelo pajé na fogueira, da qual não tirava os olhos —, o curandeiro jogava ao fogo um maço de ervas, que produzia uma fumaça de odor agradável. O pajé preparava ainda um cachimbo cerimonial, que se alternará na boca dos três homens. Agora as negociações estavam abertas.

Tio Jorge dizia ao pajé o que havia trazido, entre palavras índias e gestos. Os itens de metal eram os prediletos, fossem baldes de lata ou ferros de passar. Tinha preferência pelos objetos de zinco. Os três índios confabulavam entre si apenas com olhares; o auxiliar trazia demandas do resto da tribo.

Quando fechavam a lista, os quatro homens iam até a caminhonete. O índio mais robusto ajudava o Tio Jorge a descarregar a mercadoria e levá-la para a oca do pajé, onde ficava armazenada. Ao fim de tudo, o pajé passava uma bolsa de palha trançada que era pesada com uma balança romana que Tio Jorge guardava na caminhonete. Cinquenta gramas, 60… 65. Era a média de peso da sacola recheada de pedrinhas verde-escuras translúcidas. Esmeraldas. Em uma sacola separada, o dobro de pedras de berílio, o primo pobre da esmeralda.

Tio Jorge acondicionava as pedras em um compartimento secreto da caminhonete, despedia-se da tribo e tomava o caminho de volta. Algumas pedras ficavam nos botecos de beira de estrada; boa parte, em Campo Grande. Na futura capital sul-mato-grossense, havia um joalheiro de confiança que avaliava e comprava as pedras. O restante ficava em Ribeirão Preto, em outro joalheiro. Tio Jorge chegava a Araraquara com o dinheiro para passar o ano de maneira módica: dava boa parte à esposa e mandava fazer um terno de cor clara todo ano. Dividia seu imenso tempo livre entre a leitura de jornais que mandava vir de São Paulo, livros sobre mineralogia em francês — parece que aprendeu francês apenas por conta de seu mister. No restante do tempo, fumava seu palheiro e frequentava os amigos para contar as peripécias nos matagais.

Quando alguém se mostrava cético às suas histórias, esticava a mão e exibia um anel de prata, finamente trabalhado e com uma grande esmeralda oval polida. Pelo lado de dentro, a marca do joalheiro de Campo Grande.

Amealhou quantia que lhe permitiu viver a velhice com certos privilégios e a viveu para contar suas histórias. O anel, a espingarda na parede e uma puída pele de onça na sala de estar eram suas testemunhas.

Tio Jorge morreu no mesmo ano em que o Estado de Mato Grosso do Sul foi criado. Não sei se foi sepultado com o seu famoso anel, já que esse era um desejo, que sempre que podia, o deixava bem claro.

O último sertanista jaz numa sepultura sem mármores, apenas com um detalhe em granito esverdeado, sua cor predileta.

371. Pobreza intelectual

Pensamos que a pobreza intelectual seja uma primazia brasileira. Engano grosso. Lamentavelmente, outros povos, até mesmo os considerados mais desenvolvidos e ricos, sofrem dessa lepra. E a rifampicina para o morbo não é dinheiro; basta ver que hoje somos a sexta economia do mundo, há crédito abundante, mas o nível geral da população continua baixo. Se é que não baixou ainda mais nos últimos 30 anos.

Mesmo nas nações ricas — isso se vê muito nos Estados Unidos, por exemplo —, o dinheiro não é panaceia. Basta ver os artistas e os arrivistas: extravagância, o gosto puro e simples de chamar atenção porque, quando estavam no estrato mediano da sociedade, eram anônimos.

Assim é também com os países e seus habitantes.

* * *

Certa vez, durante uma reunião entre amigos num barzinho de São Paulo, conheci uma moça italiana. Ela cursava a faculdade de Letras e fazia intercâmbio no país. Naquele momento, namorava um dos colegas ali presentes. Ah, o exotismo; a curiosidade sexual dos europeus para com os habitantes dos trópicos. Não é só lenda, mas deixemos o assunto para outra oportunidade.

Entabulei uma conversa na língua nativa da moça, que tinha certa dificuldade em expressar-se em português. Descobri que ela era toscana, mais precisamente de Prato. E Prato não é uma cidade qualquer da Toscana: é a terra natal de Curzio Malaparte, um dos mais importantes escritores italianos do século XX. Não hesitaria eu em dizer do mundo, pois viveu o período mais crucial do século e soube descrevê-lo e plasmá-lo de forma sublime e cruel.

O rosto da pratense converteu-se em expressão de interrogação: “Non lo conosco”. Como assim, “não o conhece”? Ser de Prato e desconhecer seu filho mais ilustre?

Aqui entram os preconceitos acadêmicos. A academia italiana, assim como a brasileira, vira as costas àqueles que não cantam no mesmo tom, num afã de pasteurização ideológica. A universidade brasileira guia-se pela esquerda política; a italiana, sabe Deus por quê.

Mas há um preconceito contra Malaparte, fascista inconformado e comunista tardio. De que servem essas mesquinharias ideológicas se ele era excelente escritor? A academia italiana repudia-o e exalta Calvino, Pavese e outros.

Tenho certeza que Malaparte não se importaria com a indiferença da conterrânea. Para quem viu a miséria material e moral de uma Itália humilhada, de uma Nápoles faminta e desesperada, o que é a miséria individual, a burrice sectária? Ninharia.

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