217. À espera de um ‘mea culpa’

Banida oficialmente.

O banimento das sacolinhas plásticas teve seu marco inicial prático ontem (25/1): mercados da cidade deixaram de fornecê-las a seus consumidores. Elas são um problema ambiental; demoram cem anos para decompor-se. Alegra-me que nos deixarão.

Por outro lado, o que é insuportável é o oportunismo de certos setores comerciais e industriais. Passou-se toda a culpa para o consumidor, como se mais ninguém tivesse nada a ver com o assunto. Em nome de uma bela causa, o meio ambiente, faz-se “caridade com chapéu alheio”: também o custo foi todo transferido ao consumidor. Assim lhes é fácil e indolor.

O esquema de substituição proposto é, no mínimo, espúrio. Os supermercados fornecem ecobags (a um preço alto) e sacolinhas biodegradáveis (R$ 0,19 cada) e fica por isso mesmo. Como apurou reportagem desta Tribuna de 24/1, o uso doméstico das sacolinhas para, por exemplo, acomodação de lixo para coleta, terá de ser provido por sacos plásticos comprados. Entre sacolinhas e sacos de lixo, uma família de quatro pessoas pode ter um acréscimo de até R$ 50 no seu orçamento mensal. O consumo de plástico será o mesmo; apenas estará devidamente subsidiado.

O irritante é que indústria e comércio convenientemente se esqueceram que a introdução de tão “nefasta” embalagem deve-se a eles mesmos. Eles lançaram a novidade e nos acostumaram a ela. São as maravilhosas soluções que, com o passar do tempo, se mostram não tão boas assim, como a talidomida para as grávidas e pastilhas de cocaína para dor de dentes.

Creio que merecemos um mea culpa da indústria e do comércio. No mínimo.

* * *

Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em  26/1/2012. Aqui.

216. Por uma teoria da percepção e do conhecimento

Aula de geometria (fonte: en.wiki)

É com surpresa que vejo certas manifestações. Não tem muito tempo que vi, em um jornal, uma pequena seção que colhe opiniões dos populares sobre algum assunto que esteja em voga no momento, e as publica. Com relação à onda de explosões de caixas eletrônicos, o jornal fez a seguinte pergunta: “Os roubos aos caixas eletrônicos estão se tornando comuns. Será que está virando profissão?”, mais ou menos nesses termos.

Um dos entrevistados respondeu: “Não. Não pode e não deve. Roubar é algo feio e horrível; não deve virar profissão”.

Um terrível problema de “ruído” aqui. O entrevistado não entendeu a ironia existente no termo. Compreendeu-o em sentido literal e manifestou-se contra a ladroagem virar profissão. Louvável opinião, mas problemática pela sua conclusão.

Nosso ambiente cultural é asfixiante, bem se sabe. Reclamávamos do duplo sentido presente nas letras de axé, há 10, 15 anos, e hoje elas nos parecem requintadas por recorrerem a tal mecanismo de metáfora. Principalmente quando há letras de funk obscenas, sem meios termos; o duplo sentido perde a razão de ser. Vira recurso poético.

É claro que tal deficiência de compreensão é fruto de concepções que não valorizam a educação e de um Estado incompetente nesse setor. A fome com a vontade de comer.

* * *

Penso que a percepção-conhecimento — uno-os assim porque os vejo como sendo o mesmo mecanismo — organiza-se como as dimensões geométricas: comprimento (horizontal), altura (vertical) e profundidade (que com as anteriores, cria o volume). Afinal, não é em vão que se utiliza a expressão “linha de pensamento”.

A mente, por sua forma de processar as informações, também podem ser “geometricamente” qualificadas. Para tanto, é preciso passar a geometria tradicional para esta que se propõe uma “geometria do pensamento”.

O comprimento são as informações in natura, colhidas da observação do mundo, sem nenhuma intervenção por quem as coleta.

A altura é a variação que o indivíduo dá ao comprimento. Digamos que o caso da ironia e da metáfora encaixe-se aqui. De uma informação x, no plano, eleva-se uma linha y, deslocando a horizontalidade do termo inicial e provocando o desvio de sentido, criando um raciocínio bidimensional. Em suma, é a intervenção do sujeito pensante na informação inicial; intervenção feita com elementos do próprio mundo, uma alavancagem semântica.

A profundidade são as referências culturais que permitem as ciências e a filosofia; é o pensamento que nasce do olha crítico do objeto horizontal; a interferência na linha outrora direta estabelecida entre objeto e observador. Mais que observador, o sujeito torna-se interventor.

E, por adição, temos três classes de raciocínio, em ordem crescente:

O linear, monodimensional. É baseado no comprimento: são pontos e linhas horizontais entre pontos; nada que fuja da horizontalidade é perceptível. É como a criança vê o mundo em suas primeiras percepções. Refuta a duplicidade; refuta o duplo sentido; refuta a metáfora. Funciona por oposições binárias, de ponto a ponto, sempre horizontal. O pensamento monodimensional aceita os dados do mundo tal como lhe são apresentados, sem questionamentos, sem relações.

O vertical, bidimensional. Conjugando-se os dois planos, há o pensamento que se desloca em aclives e declives, provocando a alteração da informação captada do mundo. É o nível das figuras de linguagem, das oscilações de registro preconizadas pela Linguística. A maioria das pessoas qualificadas como sagazes e inteligentes têm essas duas articulações dimensionais. Os índices de deslocamento vertical, no entanto, também são fornecidos pelo mundo; mas são devidamente interpretados.

O profundo, tridimensional. É a cognição humana por excelência. A articulação das três linhas. Toma-se o conhecimento do mundo pela horizontal, transforma-o alterando-lhe o sentido, na vertical e, cria-se um sentido àquilo, particular para cada indivíduo. É aqui que nascem teorizações sobre o mundo, questionamentos, ideias.

Em linhas gerais, pode-se dizer que são assim organizados:

Monodimensional: X é x, logo, x não pode ser y (opõe-se a).

Bidimensional: X pode ser y, segundo o contexto.

Tridimensional: X pode ser y e também penso que possa ser z. (aqui entra a criação)

Essa singela teoria não tem o intuito de explicar mecanismos cognitivos, mas sim organizá-los espacialmente. Não se deve confundir os escopos.

* * *

Voltando ao caso sintomático apresentado na primeira parte, nosso entrevistado não consegue fazer um movimento vertical, dentro de um pensamento bidimensional. Está preso em um mundo de oposições maniqueístas.

Óbvio que, eventualmente, tais situações monodimensionais produzem-se por mera desatenção. Mas pode ser um índice de que as coisas não estão tão bem quanto dizem.

215. Big Boring Brasil – Cordel

Recebi um excelente cordel por e-mail. Não é de meu feitio reproduzir simplesmente, mas, neste caso particular, vale a pena.

* * *

Cordel que deixou Rede Globo e Pedro Bial indignados

Antonio Barreto nasceu nas caatingas do sertão baiano, Santa Bárbara/Bahia-Brasil. Professor, poeta e cordelista. Amante da cultura popular, dos livros, da natureza, da poesia e das pessoas que vieram ao Planeta Azul para evoluir espiritualmente. Graduado em Letras Vernáculas e pós-graduado em Psicopedagogia e Literatura Brasileira.

Seu terceiro livro de poemas, “Flores de Umburana”, foi publicado em dezembro de 2006 pelo Selo Letras da Bahia. Vários trabalhos em jornais, revistas e antologias, tendo publicado aproximadamente 100 folhetos de cordel abordando temas ligados à Educação, problemas sociais, futebol, humor e pesquisa, além de vários títulos ainda inéditos.

Antonio Barreto também compõe músicas na temática regional: toadas, xotes e baiões.

BIG BROTHER BRASIL – UM PROGRAMA IMBECIL

Antonio Barreto

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Da muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social

Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados

Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal.
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal.

FIM

214. O país dos canhotos

Estátua de Lênin em São Petersburgo, vitimada por uma atentado em 2010.

Há alguns dias, um leitor desta Tribuna afirmou estar São Paulo nas mãos de um partido de direita. Penso qual poderia ser essa agremiação, pois o Brasil é uma aberração política que não tem partidos desse matiz.

Quando me refiro a direita, penso em um partido que defenda estado mínimo e liberalismo econômico. Entre nós, há uma tendência malévola em associar regimes totalitários a políticas de direita, o que é de um maniqueísmo rasteiro. Tais regimes têm mais liames com a esquerda, do ponto de vista econômico: controle da economia pelo Estado, políticas de investimentos públicos, estado dilatado e onipresente.

No caso brasileiro, não existe direita por acomodação da classe política: há apenas conveniências. Mesmo o Regime Militar não pode ser considerado de direita: a economia, sob a batuta de Delfim Netto, regeu-se pela execução de grandes obras públicas, intervencionismo econômico e barreiras protecionistas, o que não deixa a dever a nenhum país do bloco soviético.

O partido brasileiro que atentasse seriamente contra o mastodonte sagrado do Estado brasileiro ganharia antipatia imediata de grande parcela da população. Estamos com a esquerda desde 1995, só que a social-democracia é mais leninista e, portanto, optou pela desestatização parcial da economia, de maneira muito similar à NEP — Nova Política Econômica, na sigla russa — de Lênin.

Como disse Lula nas eleições gerais de 2010, ele estava feliz “porque aquela eleição era a primeira em que todos os candidatos eram de esquerda”. Afirmação que em vez de aliviar, assusta. Assim, gostaria que me apontassem a tal direita que governa São Paulo.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa (Araraquara/SP), em 10/1/2012. Aqui.

213. O euro e a Europa

Bandeira da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951-2002)

A eventual saída da Grécia da Eurozona é preocupante: caso a crise europeia se agrave, outros países poderão tomar o mesmo rumo, arruinando a moeda única. Mas o fim do euro e a reintrodução das divisas nacionais não é o pior cenário. Economicamente, um transtorno sem par; moralmente, uma catástrofe sem precedentes.

O euro não é apenas uma moeda. Personifica um continente que exsurgiu das ruínas de uma guerra fratricida; é o símbolo da paz tão almejada pelos europeus nos sombrios anos do pós-guerra.

Em 1951, fundou-se em Paris a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, com escopo comercial, mas buscando a integração e procurando afastar as tradicionais rivalidades. Tinha por signatários Itália, França, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo e Alemanha Ocidental. Tais negociações darão forma ao Tratado de Roma, em 1957, a certidão de nascimento da Comunidade Econômica Europeia, União Europeia depois de 1995.

A relação entre seus membros — 6 em 1957, 27 hoje — não é apenas econômica. Buscou-se uma identidade europeia baseada na convivência e na concórdia.

A moeda única que veio coroar a ideia da Europa empenhada pela paz e não é mera chispa. É passo decisivo que começou em 1979, com a Unidade Monetária Europeia (ECU, na sigla inglesa), moeda escriturária. Em 1999, ainda como moeda “virtual”, passou a chamar-se euro, e em 2001, já como moeda física, materializou a unidade do continente.

Frente à crise financeira instalada e o enfraquecimento de suas instituições, a Europa corre o risco de retroceder — não imediatamente — a um ambiente pré-1914. Monetária e politicamente falando.

* * *

Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 7/1/2012. Aqui.

212. Feliz 1955

Embora a sombra do calendário maia deixe muita gente ressabiada, não vejo motivo para pânico. Afinal, quando os espanhóis chegaram ao México, os maias já eram uma civilização em declínio. Um calendário 500 anos adiantado, creio que estivesse de bom tamanho àquele povo.

Nem creio que o mundo vá acabar. Tampouco acabarão certos maus hábitos que grassam entre nós, habitantes do país-continente. O ano que vem será importante para o País e, por isso, vem prenhe de preocupações: hecatombes à parte, iremos às urnas escolher prefeitos e vereadores. A festa da democracia na terra do voto obrigatório; só faltam balões e mesários com língua-de-sogra nas seções eleitorais.

As eleições municipais, que tanto já agitam o noticiário, são vistas com ansiedade pela classe política porque definem o cenário para o próximo ato: as eleições gerais de 2014. Agora, é época de os políticos tirarem seu arsenal de ismos: populismo, fisiologismo, clientelismo, com destaque para o primeiro. E em busca de votos, sempre vale a receita deixada por Getúlio Vargas e que continua a render a generosos dividendos políticos: a fantasia de ‘pai dos pobres’. Quantos já não a usaram? Quantos não a usam? Parece que nossos mandatários mudam de corpo, mas são sempre o mesmo Vargas da “Revolução” de 1930, do Estado Novo e de sua volta triunfal “nos braços do povo”, em 1951. Sem tanta eloquência, é verdade.

Gostaria de comemorar, no voo da rolha do espumante, não a aurora desse nevoento 2012 de implicações mesoamericanas, mas o sepultamento definitivo de 1954, esse sim, o ano que não acabou.

* * *

Artigo publicado na Tribuna Impressa (Araraquara, São Paulo) de 31/12/2011. Disponível no Araraquara.com.

211. Nascimento

Este não: é predestinado.
Vai perder a vida
por uns ingratos:
Nós.

210. Reflexão natalina

Natal é um período de reflexão; mas também cabe uma reflexão sobre o próprio Natal: o que significava e o que se tornou. Das notícias relacionadas à data publicadas por esta Tribuna*, grande parte remete-se a reclamações: o movimento do comércio não está bom; falta iluminação decorativa nas ruas.

Pergunto-me se o Natal resume-se a isso. Além, claro, da sanha consumista, do cheiro de tender, das ruas abarrotadas, das filas intermináveis, das músicas com harpa paraguaia nos alto-falantes das lojas, de esquálidos papais-noéis esvaecendo-se em suor entre os enchimentos e a tortura da roupa vermelha. Presentes que trazem apenas o entusiasmo do instante em que são abertos.

A decoração pisca sobre nossas cabeças; paira no ar um desânimo abafado e calorento de neve falsa a trinta graus. Falar em Deus ou em Jesus Cristo é visto com maus olhos pelos cépticos de plantão. Mas não custa lembrar que as decorações de Natal e os manjares à data associados não são o motivo da festa; é a comemoração que os traz como consequência.

O intuito maior é reunir a família para lembrar o porquê da confraternização; que por um segundo que seja, lembremo-nos daquele que se ofereceu em sacrifício por nós. Lembremos da família ausente, dos amigos.

Na balança dos valores, a inconsequência do excesso tem pesado mais; todo fim de ano há problemas relacionados — seja na bebida, seja na falta de precauções — que terminam em tétricos brindes nas manchetes de jornal.

Deixo a vocês, leitores, um convite à reflexão.

* * *

* Este texto foi publicado na seção Ponto de Vista do jornal Tribuna Impressa de hoje, 24/12/2011. Disponível no Araraquara.com.

209. A força das palavras

Bíblia manuscrita em latim, da Abadia de Malmesbury, Inglaterra. Fonte: Wikipedia.

Salvo engano, foi em uma já longínqua aula de Linguística que a questão foi posta: quando se nomeia algo, o nome usado passa a ser a coisa. Explico-me melhor: o nome é a coisa. Dirão que enloqueci. Não, não, de modo algum: apesar das várias tentativas, a faculdade de Letras não derreteu meu cérebro. É mais simples do que parece: está na Bíblia. No Gênese, para ser mais exato.

Está lá e é bem simples: Deus disse e a coisa se fez. Os primeiros versículos do Gênese, considero-os o primeiro tratado de Linguística. Um tratado de Linguística ante litteram e ab ovo. E tal poder evocatório da palavra remete-nos a todo um compêndio de palavras mágicas e seu poder de transformação.

Também para os muçulmanos, a declamação da shahada, uma profissão de fé, basta para que, aos olhos de Deus, o que a pronunciou seja considerado um crente. A shahada, independente da língua materna do fiel, é pronunciada em árabe, língua na qual está escrito o Alcorão.

O árabe é a língua litúrgica do Islã, independente da língua falada pela população; temos muçulmanos iranianos, que são de língua materna persa; ou os turcos, cuja língua não tem relação com o árabe, exceto por empréstimos. A língua turca passou por uma depuração nos anos 1920; o turco com excessivos empréstimos do árabe entrou para a história como turco otomano.

Mesmo o Alcorão é mantido em árabe. Suas “traduções” não são assim consideradas. Basta ver as edições em português que são impressas na Arábia Saudita, e que têm por base a tradução do Prof. Dr. Helmi Nasr, não vêm indicadas como traduções, mas como “interpretação do seu sentido em português”. Deduz-se que somente se pode ter acesso à verdade islâmica pela língua árabe.

Na Turquia, entre 1932 e 1950, o adhan — chamado feito pelos muezins do alto das mesquitas, convocando os fiéis para as preces — foi feito em turco. Sua forma árabe foi restaurada pelo primeiro-ministro Adnan Menderes. Possivelmente, os muçulmanos turcos viam naquele chamado em turco algo “pouco natural” ou incompatível com o Islã. Ou seja, a perda do poder evocatório por conta da mudança da língua.

Algo similar ocorre com o catolicismo. Até o Concílio Vaticano II, a língua litúrgica da Igreja era o latim. Usava-se na missa e reservava-se a língua local para a homilia (justo, porque é a parte dos exempla) e toda a força evocatória estava nas formulas presentes nas várias partes da homilia, que também guardavam certas entonações, similares ao canto gregoriano.

O latim ficou restrito a determinadas cerimônias e às missas rezadas pelo Sumo Pontífice; pergunto-me o porquê de uma decisão tão descabida. As orações e profissões de fé católicas ficaram esvaziadas de sentido e de força evocatória. Rezar um Pai Nosso em português não é a mesma coisa que rezá-lo em latim.

Alguns se levantarão e dirão: “então, teríamos de adotar como língua litúrgica o grego, que é a língua do Novo Testamento. A bacia oriental do Mediterrâneo era profundamente helenizada e os Evangelhos ganharam grande difusão por terem sido escritos em língua grega. Mas a Igreja, por Pedro, estabeleceu-se em Roma e adotou determinados símbolos da sociedade sobre a qual se estabeleceu, não se limitando aos pictóricos — como se vê na pictografia paleocristã —, mas encampando também a língua. O latim é a língua da liturgia católica romana e como tal deveria ser restabelecida.

208. Dos dias quentes

No céu de azul chapado
o bafio do sol quente
sobe em prumo do chão.

O calor, essa virtude;
uma penitência cintilante
de brilhos na água marinha
e areia branca.

Haja pés para correr
sobre a areia quente.
Suor, vermelhidão
e mosquitos que jamais
leram Platão
em sua efêmera vida.

207. Ontem e hoje

Antes o dinheiro valia ouro. Toda cédula era uma espécie de certificado que correspondia a certo peso em ouro que estava depositado no Banco do Brasil. De vez em quando, o Governo dizia que os dez mil-réis não valiam mais meio grama de ouro, mas a quatro décimos de grama do sonante metal; o que permitia a autoridade monetária imprimir mais dinheiro e, de certa forma, fomentar a inflação.

Hoje existe um Banco Central; não existe mais o lastro em outro e a moeda vale porque o Governo diz que assim é. As coisas pareciam mais simples antigamente, não?

* * *

Uma pessoa interessava-se em algum produto — fosse ele comida, uma peça de fazenda, fusíveis, naftalina, tanto faz. Entrava no estabelecimento comercial, quase sempre na mesma rua da casa, batia com os nós dos dedos na madeira do balcão e pedia ao imigrante dono da birosca:

— Seu Giovanni, faça-me lá o favor de dar-me um quilo de batatas e umas pedras de anil.

Bastavam essas palavras e o balbuciante lojista fornecia a mercadoria.

Sono… son due tostoni…

As duas moedas de 80 réis (ou de 100, de acordo com o período), saíam rápidas do bolso e chocavam-se ruidosas sobre o balcão.

— Aí tem, seu Giovanni. Bom dia.

Simples. Rápido. Eficiente.

Vejamos hoje como se dá o mesmo procedimento. É notório que as pequenas vendas já sumiram. Os supermercados acabaram com elas. Nosso personagem terá de pegar o carro (porque morre de preguiça de ir a pé), passar em algumas ruas de trânsito complicado, estacionar o carro, atravessar corredores entulhados de chamarizes. Até chegar às batatas, o comprador está com as mãos cheias de várias coisas. Por sorte, alguém abandonou ali, do lado das batatas, uma cesta plástica. Acho que anil ninguém mais usa… fiquemos apenas com as batatas.

Tem consigo uns seis itens. Aproveitou para pegar uma garrafa de vermute e foi para o caixa rápido, o de até 20 volumes, que de rápido tem muito pouco. Depois de desfilar por um corredor feito de gôndolas abarrotadas de salgadinhos e revistas várias — olha, a Playboy da fulana! — chega ao caixa. Descarrega a cestinha. A interação com a atendente de caixa é dramática. Observem:

— Bom dia.

— Bom dia.

— Nota fiscal paulista…?

— Sim, por favor.

— O CPF?

Diz o número do CPF.

— Não bate, senhor.

Diz de novo. Trocou algum dígito ou a moça digitou errado; passa as compras.

— Para bebida alcoólica preciso da sua data de nascimento, senhor.

Ele diz.

— São vinte e cinco reais e quarenta e nove centavos, senhor.

Isso porque ele entrara apenas para comprar batatas. O anil não há mais, como já dissemos, e saca um cartão para pagar a dívida.

— Crédito ou débito?

— Débito.

A moça passa o cartão.

— Senha.

O homem digita-a no terminal a sua frente.

— Senha incorreta, senhor… digite novamente.

Nervosamente, o homem digita. Alguns segundos de tensão e o estalo da gaveta da caixa registradora abrindo-se dá por recebido o pagamento.

O homem espera em silêncio. A resposta não tarda:

— Ah, a Prefeitura proibiu as sacolinhas de plástico; são antiecológicas. O senhor pode estar comprando a nossa sacola ecológica por quatro reais e cinquenta.

Por sorte, há umas caixas de papelão próximo. O consumidor põe tudo nas caixas, desce uma rampa com as duas mãos ocupadas com a caixa, deposita-a no porta-malas. Põe-se no carro, toma uma fechada na saída do estacionamento, quase pega um ciclista no semáforo e chega em casa com as compras. Tira-as da caixa e nota, não sem uma nesga de desespero no rosto, que esqueceu as batatas no caixa.

Regras beneditinas, Prólogo (Excerto)

Escuta, filho, os preceitos de mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de um bom pai para que voltes, pelo labor de obediência, àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência. A ti, pois, se dirige agora a minha palavra, quem quer que sejas que, renunciando às próprias vontades, empunhas as gloriosas e poderosíssimas armas da obediência para militar sob o Cristo Senhor, verdadeiro Rei.

‘Missiva ao vivo’

O primeiro programa ‘Missiva ao vivo’ foi ao ar nesta quarta feira, às 11 da manhã. Apresentado por este que vos escreve, o enfoque são generalidades; a primeira edição foi sobre as mudanças econômicas no Brasil desde 1942 até 1989, baseando-se nas mudanças dos padrões monetários, mais alguns comentários aleatórios. Pode vê-lo aqui.

A intenção é que o programa seja semanal, todas as quartas, com transmissão ao vivo às 11 da manhã, que poderá ser assistido no TwitCam.

A próxima transmissão deverá ocorrer em 30/11.

206. Do ofício

Um engenheiro civil saberia calcular a resistência de um pilar apenas olhando-o? Ou um engenheiro mecânico conseguiria resolver um problema de u’a máquina apenas em olhá-la? Certamente que não. Porém, de algumas cepas de profissionais, exige-se uma solução imediata e a pronta solução de intrincados questionamentos lançados à queima-roupa. É isso que se espera do profissional de língua portuguesa, seja ele professor, revisor ou alguma outra ocupação que lhe caiba.

Espera-se desse tipo de profissional uma espécie de conhecimento automático, enciclopédico. Como qualquer outra profissão técnica, o especialista precisa de seus manuais, de seus vade mecum. O conhecimento da língua portuguesa não é algo de pleno domínio; creio que nenhuma língua seja, a um falante-técnico, de conhecimento absoluto. Sabe-se bem que alguém que termina seus estudos regulares e não dá prosseguimento a eles, no dia a dia, ou seja, deixa de estudar, está condenado ao esquecimento e à desatualização. A memória humana não é perene…

Porém, o profissional de língua portuguesa costuma ser alfinetado ou com pegadinhas ou com as já citadas perguntas à queima-roupa. O que me parece desleal, pois presume que ele tenha de saber absolutamente tudo. Claro que, o básico do básico remanesce na memória; parte, nunca entrará.

Um bom revisor, por exemplo, não seria alguém que soubesse todas as perguntas que lhe dirigem ou tudo que vê sobre o papel, mas sim aquele que, caso não saiba à memória o que se lhe depara, saiba sim onde achar uma resposta. Esta é a função do revisor.

* * *

P.S.: ia referir-me ao profissional de língua portuguesa como bacharel em Letras, título de ensino superior, mas, antigamente, muitos revisores eram simplesmente apaixonados pela língua, autodidatas. Hoje, o autodidatismo foi atropelado e condenado pela sanha de diplomas e certificados.

205. Naquele tempo

Cem anos, para nós da era telemática, pode parecer muito tempo. Mas em termos de Humanidade, é pouco. Lendo relatos de quem viveu o final do século 19 e começo do 20, nota-se o abismo que se abriu entre o presente e o passado não tão remoto.

Pensa-se muito em técnicas, indústrias e procedimentos — a palavra tecnologia dá-me certa comichão — mas as mudanças são muito além disso, embora essa seja sua faceta mais aparente. Há mudanças mais profundas: tanto na forma de ver o mundo quanto nos costumes.

Uma boa fonte de comparação desse ontem com o hoje é o livro “São Paulo Naquele Tempo (1895-1915)”, do Prof. Jorge Americano. São basicamente memórias, retalhos, gritos dos pregoeiros, cheiros. Ao mesmo tempo em que é profundamente intimista, suas memórias misturam-se ao cotidiano da metrópole nascente, fazendo parte dela: duas realidades diferentes com pontos de contato. A cidade, de mero cenário, rouba o protagonismo das memórias.

É o tipo de livro que adquire valor de duas maneiras: ou quando é escrito na velhice do autor, ou seja, com distância temporal do tempo narrado ou quando envelhece e ultrapassa o autor, deixando-o na efemeridade da vida. O livro de Americano é contemplado em ambas a características. O professor e reitor da USP escreveu-o na sua aposentadoria, nos anos 50.

Se a cidade — e os costumes — já haviam mudado tanto do começo do século até seus meados, que dirá agora, tempo em que os fatos narrados já completam mais de cem anos. Acabam mesmo por ocorrer alguns problemas na localização de determinados edifícios marcantes, como demonstra o trecho abaixo, extraído do capítulo “Viaduto do Chá, Rua Barão de Itapetininga e Praça da República”:

Quem saísse do centro da cidade pelo Viaduto do Chá deixava à direita a Chácara Rodovalho, onde está o Teatro Municipal, e à esquerda um grupo de casinhas pertencentes à Santa Casa de Misericórdia, onde hoje está a Casa Anglo-Brasileira.

Quem souber o que foi a Casa Anglo-Brasileira… Provavelmente algo que era na mesma calçada da Sede da Light (hoje Shopping Light), em direção à Praça da República.

Quanto aos costumes, nota-se a diferença brutal nas questões do flerte: sempre à distância e em lugares certos, principalmente à saída da missa; os modos mais adocicados. Em suma, o livro do Prof. Jorge acabou por tornar-se referência — a meu ver — de quem quiser devassar a Paulópole em sua Segunda Cidade — se considerarmos que houve três no período de 1860 a 1960, como retrata bem um outro livro cuja referência agora me foge.

Editado pela primeira vez em 1957, “São Paulo Naquele Tempo (1895-1915)” teve reedição em 2004 pelo consórcio editorial Carbono 14/Narrativa-Um/Carrenho Editorial. Ainda do Prof. Jorge, existem as obras “São Paulo Nesse Tempo (1915-1935)” e “São Paulo Neste Tempo (1935-1962)”.

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